Então as forças armadas saíram da Rocinha na manhã de ontem (29). E você, cidadão que tem acompanhado o noticiário cotidiano, o que acha disso?
A imprensa noticia que não há tiroteios na Rocinha há mais de 24 horas. Seria isso prova de que a atuação do Exército na comunidade deu certo? Será que os militares conseguiram inibir a ação de criminosos e impediram mais banho de sangue na favela?
Se formos ouvir o que o ministro da Defesa, o governo do Rio e a imprensa tem a dizer, sim, podemos acreditar que o Exército foi uma solução de curto prazo para a comunidade.
A imprensa, as autoridades e a população adoram "soluções" rápidas, simples e mágicas para problemas duradouros, complexos e reais (alguém aí se lembra de uma solução mágica chamada UPP?). Então, não é de se estranhar que achemos que o problema foi, por hora, resolvido.
Mas se formos analisar friamente essa semana em que o Exército atuou na Rocinha, o que temos de concreto? Nada. A não ser o custo imenso que uma operação desse porte tem para os cofres públicos.
Sim. É fato que você encher uma área com agentes do Estado armado geram, em curto prazo, uma inibição da atuação de criminosos. Isso é fato notável.
Quem acompanha a segurança pública nos últimos 40 anos sabe como funcionam ocupações policiais/militares: há um tiroteio quando os agentes entram, depois das primeiras horas fica tudo tranquilo e nos dias seguintes, praticamente nada acontece a não ser algumas apreensões de armas e drogas, e as prisões de alguns borra-botas que são destacados pelo comando da quadrilha para permanecer no local e impedir a invasão de outros bandidos.
E, é claro, que não há ocupação que consiga integralmente controlar todos os pontos de uma favela grande como a Rocinha. Então, eventualmente também há alguns confrontos esporádicos entre os agentes do Estado e os criminosos armados.
Bem, isso acontece em qualquer favela do Rio de Janeiro desde a década de 80 (e até antes disso). E não foi diferente do que aconteceu na Rocinha (apenas poucas horas antes do Exército sair, policiais trocaram tiros com seis homens armados, só para dar um exemplo de que confrontos também ocorreram durante a permanência do Exército).
O Exército saiu, a polícia vai sair de fininho devagar e a UPP (que ocupa a Rocinha há cinco anos) continuará seu trabalho de enxugar gelo para manter o sonho das Unidade de Polícia Pacificadoras de pé (quando todos sabem que isso já foi sepultado).
A quadrilha que tem o controle atual do território continuará com ele. O mais provável é que os criminosos rivais tentem tomar as lucrativas bocas-de-fumo da Rocinha. Sim. Guerras como essa se estendem por semanas, ou até mesmo por meses.
Mas existe a possibilidade dos próprios criminosos entrarem num acerto, com ou sem a intervenção das autoridades de segurança. Ou o acerto pode ser determinado pelos policiais das delegacias e batalhões que regem essas dinâmicas criminais. Se o Batalhão X disser que a guerra acabou e que a facção Y vai dominar aquela favela, a guerra provavelmente vai acabar
E se não acabar por bem, acabará por mal, porque a polícia poderá tornar a vida da facção inimiga um inferno, fazendo ações policiais rotineiras que trarão prejuízo para os negócios.
E, então, tudo voltará à mais perfeita ordem, com as gangues ganhando dinheiro com a droga e os policiais corruptos lucrando com o negócio ilícito.
E nada mudará. Pode chamar o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e até os Navy Seals. No atual arranjo das coisas. Nada mudará.
Daqui a 20 anos, estaremos exigindo a entrada do Exército na Rocinha (ou em outra favela), dizendo que a situação ficou insustentável. E daqui a 20 anos, ficaremos satisfeitos apenas porque os tiroteios pararam por 24 horas.
sábado, 30 de setembro de 2017
domingo, 24 de setembro de 2017
Polícia veio para ficar na Rocinha, diz governador do Rio...em 2011
Quem aí não se lembra dos policiais do Bope estendo a bandeira brasileira no alto das favelas depois de cada ocupação antes da entrada das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas comunidades cariocas?
Quem aí se esqueceu de repórteres tendo orgasmos com cada blindado entrando em preparação para uma nova "pacificação"?
E das autoridades se gabando que tinham acabado com o jugo do tráfico e trazido paz duradoura para os moradores das comunidades-alvo das ocupações policiais.
Toda vez que vejo a imprensa exigindo a ocupação de favelas, toda vez que eu vejo o espetáculo das operações policiais (e principalmente das ações militares), toda vez que eu ouço uma autoridade prometendo a permanência da polícia nessas comunidades, eu me lembro dessa época.
Foi uma época de pseudo-sonhos, que se estendeu de 2008 a mais ou menos 2012. Um período em que a imprensa e a sociedade acreditaram cegamente na utopia de um governo que prometeu acabar com o controle territorial armado do Rio de Janeiro.
Mas na verdade eu não lembro apenas dessa época, eu me lembro das operações pré-Jogos Panamericanos 2007, eu me lembro das ações dos governos Rosinha, Benedita, Garotinho, Marcelo Alencar (eu não lembro nada de Moreira Franco, porque eu era muito criança)...
O modelo entra, ocupa, ilude a população e sai da favela não é novo. Mas é surpreendente como a imprensa, a sociedade e os governos insistem nesse modelo fracassado, seja de operações com duração de poucas horas seja com pseudo-ocupações de vários meses (ou anos no caso das UPPs).
Toda vez que surge uma "onda de violência", uma imprensa torpe exige uma ação contundente da polícia. E, se a polícia não é espetacular ou "contundente" (leia-se: não mata, prende e apreende o suficiente), a solução é chamar o Exército.
Pouco importa o resultado prático disso. Pouco importa se os últimos 30 anos demonstraram que ocupações duradouras ou escaramuças esporádicas de forças policiais/armadas não tiveram qualquer impacto no modelo de criminalidade armada no Rio de Janeiro.
Foi aliás, esse paradigma de ocupação territorial como resposta para ocupação territorial que deu origem à mais nefasta modalidade criminosa do Rio de Janeiro: as milícias. Policiais e ex-policiais crentes nesse modelo decidiram acabar com o tráfico em suas comunidades ocupando eles mesmos as favelas.
Enquanto acreditarmos que a ocupação territorial é a solução para nossos problemas (e sabemos pela história da humanidade que ocupações por estrangeiros/estranhos não funcionam), não vamos atacar os principais problemas que alimentam o controle territorial armado ilegal no Rio.
E que problemas são esses? A corrupção policial, a falta de recursos investigativos, a falta de atenção aos esquemas de atacado da droga, os olhos fechados para os fornecedores de armas (e esqueça um pouco os esquemas transnacionais de tráfico de armas, estou falando aqui também de policiais, colecionadores de armas, firmas de segurança, cidadãos de bem que têm porte de arma e as desviam para os criminosos), a legislação linha-dura contra a venda e consumo de drogas, apenas para citar alguns.
Em 2011, ouvimos o ex-governador (e agora presidiário) Sérgio Cabral dizer que a polícia chegou à Rocinha para ficar. Seis anos depois, ouvimos seu sucessor (e na época vice-governador) Luiz Fernando Pezão repetir o mesmo mantra.
Quem aí duvida que daqui a seis anos ouviremos o próximo governador falar a mesma coisa?
Quem aí se esqueceu de repórteres tendo orgasmos com cada blindado entrando em preparação para uma nova "pacificação"?
E das autoridades se gabando que tinham acabado com o jugo do tráfico e trazido paz duradoura para os moradores das comunidades-alvo das ocupações policiais.
Toda vez que vejo a imprensa exigindo a ocupação de favelas, toda vez que eu vejo o espetáculo das operações policiais (e principalmente das ações militares), toda vez que eu ouço uma autoridade prometendo a permanência da polícia nessas comunidades, eu me lembro dessa época.
Foi uma época de pseudo-sonhos, que se estendeu de 2008 a mais ou menos 2012. Um período em que a imprensa e a sociedade acreditaram cegamente na utopia de um governo que prometeu acabar com o controle territorial armado do Rio de Janeiro.
Mas na verdade eu não lembro apenas dessa época, eu me lembro das operações pré-Jogos Panamericanos 2007, eu me lembro das ações dos governos Rosinha, Benedita, Garotinho, Marcelo Alencar (eu não lembro nada de Moreira Franco, porque eu era muito criança)...
O modelo entra, ocupa, ilude a população e sai da favela não é novo. Mas é surpreendente como a imprensa, a sociedade e os governos insistem nesse modelo fracassado, seja de operações com duração de poucas horas seja com pseudo-ocupações de vários meses (ou anos no caso das UPPs).
Toda vez que surge uma "onda de violência", uma imprensa torpe exige uma ação contundente da polícia. E, se a polícia não é espetacular ou "contundente" (leia-se: não mata, prende e apreende o suficiente), a solução é chamar o Exército.
Pouco importa o resultado prático disso. Pouco importa se os últimos 30 anos demonstraram que ocupações duradouras ou escaramuças esporádicas de forças policiais/armadas não tiveram qualquer impacto no modelo de criminalidade armada no Rio de Janeiro.
Foi aliás, esse paradigma de ocupação territorial como resposta para ocupação territorial que deu origem à mais nefasta modalidade criminosa do Rio de Janeiro: as milícias. Policiais e ex-policiais crentes nesse modelo decidiram acabar com o tráfico em suas comunidades ocupando eles mesmos as favelas.
Enquanto acreditarmos que a ocupação territorial é a solução para nossos problemas (e sabemos pela história da humanidade que ocupações por estrangeiros/estranhos não funcionam), não vamos atacar os principais problemas que alimentam o controle territorial armado ilegal no Rio.
E que problemas são esses? A corrupção policial, a falta de recursos investigativos, a falta de atenção aos esquemas de atacado da droga, os olhos fechados para os fornecedores de armas (e esqueça um pouco os esquemas transnacionais de tráfico de armas, estou falando aqui também de policiais, colecionadores de armas, firmas de segurança, cidadãos de bem que têm porte de arma e as desviam para os criminosos), a legislação linha-dura contra a venda e consumo de drogas, apenas para citar alguns.
Em 2011, ouvimos o ex-governador (e agora presidiário) Sérgio Cabral dizer que a polícia chegou à Rocinha para ficar. Seis anos depois, ouvimos seu sucessor (e na época vice-governador) Luiz Fernando Pezão repetir o mesmo mantra.
Quem aí duvida que daqui a seis anos ouviremos o próximo governador falar a mesma coisa?
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Exército na Rocinha: o show não pode parar
O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, pediu hoje (22) para que o Exército brasileiro seja usado para ocupar a comunidade da Rocinha, na zona sul da capital fluminense. A medida tem sido pedida à exaustão pela imprensa fluminense, como se a força armada fosse a solução mágica para um problema tão complexo quanto a insegurança pública no Rio.
O Exército, na verdade, já foi usado dezenas de vezes nos últimos 20 anos, sem muitos resultados práticos. Em geral, a força armada desfila com seus blindados, tanques de guerra e jovens recrutas com pouco ou nenhum preparo para a guerra (e com menos preparo ainda para atuar na segurança pública), mas não efetua prisões ou evita ações criminosas que ocorram a poucos metros de si.
Enfim, os militares servem muito ao espetáculo midiático, que adora ver carros de guerra circulando pelas ruas da cidade e militares camuflados posando com seus fuzis. Mas servem pouco à segurança pública.
O Exército sabe que não tem preparo para atuar como força de polícia e sabe que não fará qualquer diferença nesse caos que é a insegurança pública do Rio de Janeiro. Mas, por algum motivo, se deixa usar como peão nesse simulacro de "Jogos de Guerra".
Vejamos o que disse o comandante da 1a Divisão do Exército, general Mauro Sinott, acerca do uso do 1o Batalhão de Polícia do Exército nas operações da Rocinha.
O Exército, na verdade, já foi usado dezenas de vezes nos últimos 20 anos, sem muitos resultados práticos. Em geral, a força armada desfila com seus blindados, tanques de guerra e jovens recrutas com pouco ou nenhum preparo para a guerra (e com menos preparo ainda para atuar na segurança pública), mas não efetua prisões ou evita ações criminosas que ocorram a poucos metros de si.
Enfim, os militares servem muito ao espetáculo midiático, que adora ver carros de guerra circulando pelas ruas da cidade e militares camuflados posando com seus fuzis. Mas servem pouco à segurança pública.
O Exército sabe que não tem preparo para atuar como força de polícia e sabe que não fará qualquer diferença nesse caos que é a insegurança pública do Rio de Janeiro. Mas, por algum motivo, se deixa usar como peão nesse simulacro de "Jogos de Guerra".
Vejamos o que disse o comandante da 1a Divisão do Exército, general Mauro Sinott, acerca do uso do 1o Batalhão de Polícia do Exército nas operações da Rocinha.
"Vamos fazer um cerco à comunidade, ajudar no controle de trânsito e no controle do tráfego aéreo, a fim de liberar os
contingentes de polícia para ações mais
específicas de polícia".
Ajudar no controle de trânsito? Eu entendi bem? Vamos usar homens cuja função constitucional é garantir a defesa do país contra ataques de outros países para "controlar o trânsito". Bem, general, para isso já existe a CET-Rio.
Controlar o tráfego aéreo? Eu entendi bem de novo? Me desculpa, general, mas os bandidos não vão atacar ninguém usando helicópteros ou aviões de combate.
Liberar a polícia para fazer ações de polícia? Legal. E se o trabalho de polícia será feito pela polícia (o que inclui o cerco policial), o que sobra exatamente para o Exército fazer, além de aparecer nas câmeras de TV e apaziguar os falcões da imprensa?
A resposta é...
...nada.
É isso que o Exército fará na Rocinha. Nada.
Os militares não ajudarão a polícia. Eles não conhecem o terreno. Não estão autorizados a cumprir mandados de prisão. Não vão se envolver nos confrontos (os comandantes militares correm desse tipo de problema).
Eles serão, na verdade, uma preocupação a mais para a polícia. É mais uma cadeia de comando para dificultar as ações. Eles podem ser alvos de criminosos. E eles podem cometer violações de direitos constitucionais (já que eles não estão preparados para esse tipo de ação), algo que ocorreu em muitas das ações envolvendo as forças armadas em favelas.
O risco maior, no entanto, é a cortina de fumaça continuar na segurança pública. E os problemas reais serem, cada vez mais, jogados para debaixo do tapete, enquanto os verde-olivas posam para fotos e câmeras de TV.
Lapa, quinta-feira: Mais uma vida perdida no bangue-bangue do Rio de Janeiro
E mais uma pessoa
morreu no Rio de Janeiro, vítima da mentalidade bangue-bangue
que afeta a nossa sociedade. Jonathan Vitorino Ferraz estava numa
calçada da Lapa, quando, depois de uma tentativa de assalto,
começou o tiroteio que tirou sua vida, aos 24 anos.
Não, Jonathan
não era a vítima do assalto. Jonathan não era o
bandido. E Jonathan sequer foi morto por causa do assalto.
Quem matou Jonathan
foram aqueles que deveriam proteger sua vida: policiais.
Segundo a polícia
e testemunhas, o fato foi o seguinte: criminosos em uma moto pararam
em um posto de gasolina na Lapa para roubar pessoas. Um deles, pelo
menos, estava armado. Ele roubou um frentista e se dirigiu até
um carro para assaltar dois policiais civis à paisana.
Ao perceber que o homem
armado se dirigia até eles, os policiais sacaram suas armas. O
bandido viu as armas, largou a sua e correu para a moto, para fugir
dali.
Com o criminoso já
tendo desistido do assalto e já tendo largado a arma, os
policiais então dispararam pelo menos dez vezes para, de forma
infrutífera, evitar sua fuga. Você não leu
errado: dez vezes.
Bem, quem sabe como
funciona uma arma (e acho que isso inclui todos os brasileiros a
partir dos dois anos de idade), sabe que, quando a pessoa aperta o
gatilho, a bala sai da arma e vai parar em algum lugar. Imagino que
um policial civil saiba disso também.
Ora, se tudo der certo,
a bala vai atingir o alvo desejado ou morrer num muro. Mas existe a
possibilidade desse projétil atingir uma pessoa. E também
existe a possibilidade desse ferimento ser letal. Imagino que um
policial civil não precisa ser um estatístico ou físico
para saber disso.
A possibilidade de
atingir uma pessoa inocente aumenta exponencialmente, quando esses
tiros são disparados em uma área de grande movimentação
de pessoas, como a Lapa numa noite de quinta-feira. Acho que qualquer
policial do Rio de Janeiro tem a obrigação de saber
disso.
Mas, mesmo sabendo de
tudo isso, os policiais resolveram gastar quase todo o pente de suas
pistolas, disparando cerca de dez tiros contra um alvo em movimento,
em meio a dezenas de transeuntes.
E atentemos para outro
fato. Os dez tiros não foram disparados para evitar um roubo.
O roubo já tinha sido interrompido. Os tiros foram para evitar
a fuga (leia-se “matar”) dos criminosos.
E ainda que o roubo
estivesse em andamento, não é nem um pouco razoável
disparar dez tiros para evitar um assalto. Evitar um crime que, ainda
que seja considerado violento (por envolver ameaça), é
essencialmente patrimonial com o disparo de tiros não é
razoável.
Colocar a vida de
pessoas em risco para evitar a subtração de bens
materiais não é razoável. Não é
razoável e não é inteligente.
Mas não só
isso. Disparar dez tiros para evitar um assalto ou evitar a fuga dos
assaltantes é algo criminoso. Colocar a vida de pessoas em
risco é mais criminoso do que assaltar essas pessoas.
É um crime mais
violento do que o roubo propriamente dito. E por que é
criminoso? Porque é violento e pode colocar a vida de pessoas
em risco. É criminoso porque pode tirar a vida de um jovem de
24 anos que tinha terminado de jantar e só queria dar um pulo
na calçada para fazer uma ligação.
E é assustador
que os autores desse disparo tenham sido policiais. Pessoas que
teoricamente conhecem os riscos de usar indiscriminadamente armas de
fogo no meio da rua.
Eu não acho
assustador apenas por causa disso. Os policiais não só
parecem desconhecer os riscos desse tipo de ação, como
acham razoável disparar tiros a esmo para evitar a fuga de um
criminoso. E eles só acham isso razoável porque a
sociedade também pensa assim.
A sociedade acha
razoável a ocorrência de “efeitos colaterais” na
luta “contra a violência”. A sociedade acha que é
normal “combater” a violência com violência. A
sociedade acha OK ter pessoas inocentes morrendo nas ruas pelas mãos
de agentes do Estado, porque esses agentes estão “lutando”
contra a violência.
A questão é
que Jonathan morreu. Jonathan não só morreu. Ele foi
assassinado.
O fato de Jonathan ter
sido morto “acidentalmente” por policiais que assumiram o risco
de disparar uma área cheia de gente não é menos
grave do que se ele tivesse sido morto por assaltantes.
Ao agir dessa forma, os
policiais não estão combatendo a violência. Eles
estão sendo um fator a mais para a violência. Eles estão
ajudando a aumentar os índices de criminalidade. Eles estão
contribuindo para o risco de morte no Rio de Janeiro. E o pior, eles
não estão colaborando em nada para evitar novos
assaltos.
Jonathan perdeu sua
vida. Os assaltantes fugiram. E os policiais continuarão
atirando nas ruas do Rio de Janeiro para “combater” a violência.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Menino de dez anos morre no Alemão: UPP se transforma em um espetáculo repulsivo que ninguém mais quer assistir
Meu dia hoje começou
de um modo repulsivo. Abri meu facebook e vi o vídeo de uma criança
de dez anos assassinada pelo Estado no Complexo do Alemão. O mal estar que eu senti é
indescritível. Não consegui sequer imaginar o que sentiram os pais
desse menino.
A criança foi morta
para que o governo mantenha sua chamada política de “pacificação”.
Uma política que já nasceu predestinada a dar errado. Uma política
que nasceu em 2008 propagandeando-se como a aposta numa polícia
comunitária, de proximidade, apesar de nunca ter conseguido ser mais
do que a versão tosca de uma ocupação territorial militar.
As Unidades de
Polícia Pacificadora (UPPs) tornaram-se uma marca publicitária de
altíssimo valor. Mas nunca foram mais do que isso. Renderam bons
frutos eleitorais para os políticos que se apropriaram dela, mas
nunca rendeu mais do que lapsos de esperança numa população que
acreditou em mais uma falsa promessa governamental.
A promessa de paz
nunca chegou a ser concretizada na maioria das favelas onde as UPPs
foram instaladas. A “pacificação” nunca passou de um teatro mal
encenado, protagonizado por canastrões de terno e coadjuvantes
vestidos de fardas azuis (e pretas; e até verde-oliva).
Um teatro reencenado
dezenas de vezes com histriônicas cenas da entrada de blindados e do
hasteamento da bandeira nacional nessas favelas. Uma superprodução
envolvendo centenas de milhares de figurantes que tiveram que ceder
suas ruas, casas e campos de futebol.
O problema é que
foi um teatro produzido com vistas a uma audiência moradora de
prédios (de médio e alto padrão) e de condomínios fechados. Mas
foi tão bem produzido, que chegou a enganar os figurantes (os
moradores das favelas) que chegaram a acreditar que aquilo tudo era
de verdade e não uma versão iraquiana do Projac.
Sem receber
previamente o roteiro e sem saber do funesto final que os aguardava
no final da peça teatral, os figurantes aplaudiram junto com a
plateia, deram entrevistas para a imprensa dizendo que seu futuro
melhoraria dali por diante, que a paz finalmente chegara a suas
comunidades e suas casas.
Mas foi aí que a
peça teatral começou a ficar estranha. Outros figurantes que tinham
sido eliminados do roteiro voltaram reivindicando seus direitos de
participar da encenação. E eles vieram armados de fuzis. E as balas
não eram de festim.
E os coadjuvantes de
farda tampouco usavam balas de festim. O roteiro começou a fugir do
controle de seus diretores. E os atores começaram a se enfrentar. O
sangue começou a jorrar de verdade.
No início, os
canastrões de terno disseram que tudo bem, isso fazia parte do
roteiro. Afinal, a peça era sobre uma redenção histórica. O
enredo envolvia a reconquista de territórios há décadas
controlados pelo mal. E logo tudo ficaria bem.
Mas não ficou. E a
peça se transformou num caos completo. Os diretores, atores
canastrões e coadjuvantes fardados não conseguiam mais seguir o
roteiro. E os figurantes começaram a ficar impacientes.
E, de repente, a
audiência começou a achar tudo muito sangrento. Aquele épico de
ação e redenção histórica havia se transformado em um daqueles
western violentos que todos se cansaram de ver. E a imprensa passou a
fazer críticas negativas sobre o enredo.
Então, os diretores
começaram a ficar desesperados. “Ou a pacificação dá certo. Ou
vamos todos para o buraco”. Disse um dos coadjuvantes.
Leitores do blog,
precisamos dizer para esse coadjuvante que nós já estamos no
buraco. Na verdade nunca saímos, não é mesmo Amarildo? Não é
mesmo Claudia? O senhor só está querendo salvar os diretores desse
desastre teatral.
Senhor fardado, essa
peça até chegou a criar um climax, nos seus dois primeiros anos.
Mas depois tornou-se chata. Violenta demais.
A audiência não
quer mais peças de teatro. A gente queria que nossa polícia fosse
usada para fazer alguma coisa de verdade. Esse bangue-bangue já saiu
muito caro para todos nós.
Vamos todos sair do
teatro. Esses canastrões não merecem nossa audiência.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Violência nas manifestações: A cumplicidade de um secretário de Segurança "horrorizado" com as palavras de seu subordinado
Hoje nosso secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, se disse "horrorizado" com as declarações do ex-comandante do Batalhão de Choque, coronel Fábio, no whatsapp. Para quem não leu a reportagem da Veja, em um grupo de mensagens para oficiais da PM, o coronel escreveu atrocidades como a defesa do uso de fuzil 7.62 contra manifestantes e a comemoração de um tiro de bala de borracha nas costas de um protestante a cerca de 30 metros de distância.
O curioso dessa história é que as atrocidades cometidas pela PM durante as manifestações foram amplamente divulgadas pela imprensa ao longo de todo 2013 e 2014. Eram casos de agressões de manifestantes, uso indiscriminado de armas não letais, prisões ilegais, cerceamento do trabalho da imprensa, impedimento ilegal da circulação de pessoas etc etc. Um policial chegou ao ponto de chutar o rosto de um jornalista estrangeiro, que já estava no chão, machucado.
O curioso dessa história é que as atrocidades cometidas pela PM durante as manifestações foram amplamente divulgadas pela imprensa ao longo de todo 2013 e 2014. Eram casos de agressões de manifestantes, uso indiscriminado de armas não letais, prisões ilegais, cerceamento do trabalho da imprensa, impedimento ilegal da circulação de pessoas etc etc. Um policial chegou ao ponto de chutar o rosto de um jornalista estrangeiro, que já estava no chão, machucado.
Mas nada disso pareceu deixar "horrorizado" o secretário de segurança, o superior hierárquico de todos os policiais militares do Rio de Janeiro.
O caro secretário Beltrame só ficou ultrajado quando ele viu um oficial defendendo as atrocidades em mensagens privadas do whatsapp.
Apenas uma pergunta, Beltrame. Em nenhum momento, o senhor se questionou por que a polícia atuou de forma violenta, absurda, animalesca, ineficaz e ilegal durante as manifestações populares de 2013 e 2014?
Se o senhor (que aliás, como comandante das polícias é corresponsável por todos os desvios da tropas) tivesse buscado saber por que a polícia estava espancando cidadãos e jornalistas durante os protestos, teria sabido desde o primeiro dia que o comando do Batalhão de Choque estava incentivando seus homens a agir como animais.
Sim, Beltrame. Eu fiquei horrorizado desde a primeira vez em que estive em uma manifestação e vi, com meus próprios olhos, o que aqueles representantes do Estado estavam fazendo com os cidadãos que deveriam proteger.
Fiquei horrorizado com o que soldados, cabos, sargentos, oficiais e comandantes estavam fazendo nas ruas. E fiquei horrorizado com os chefes das polícias, com o senhor, secretário Beltrame, e com o governador do estado por fecharem seus olhos para as barbaridades cometidas por seus subordinados.
O senhor, secretário, é tão responsável pelo braço quebrado, pelo olho inchado e pelo hematoma de cada cidadão que sofreu com os abusos quanto esses militares descontrolados.
O senhor, Beltrame, é responsável por cada sequestro (sim, SEQUESTRO, porque muitos cidadãos não eram presos, mas arrastados pelos policiais sem terem cometido qualquer crime) cometido por policiais nessas manifestações.
É lamentável ver como o senhor, uma autoridade de altíssimo prestígio junto à população, tente se isentar de suas responsabilidades. Mas o mais lamentável é saber que essa é apenas a ponta do iceberg de um sistema policial que ainda acha que está acima da lei e que ainda age como a Santa Inquisição na Idade Média, o capitão do mato do Brasil colônia, a guarda do rei ou o agente da ditadura.
Um sistema policial que não evoluiu com a sociedade.
Policiais não acham que estão acima da lei apenas nas manifestações. Eles acham que estão acima da lei quando achacam cidadãos, quando atiram a esmo nas ruas da cidade, quando, com sua arma, ameaçam outros cidadãos e até agentes do Estado.
E a polícia continua se pensando acima da lei, porque seus superiores nada fazem para colocar ordem na casa. Superiores como o senhor, secretário Beltrame, ou o governador do Estado.
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Tiros pela cidade: como o disparo de armas de fogo nas ruas se tornou banal na nossa sociedade?
Estava em casa hoje. Eu na cozinha, meu filho na sala, quando escuto tiros na rua. Corro desesperado para saber se está tudo bem com meu filho. Tudo bem, parece que a barbárie lá de fora não atingiu minha casa. Era por volta das 16h.
Na tensão, não consigo contar o número de tiros. Não sei se foram três, quatro ou cinco. Escuto um homem gritando lá fora. “Calma, calma. Sou policial. Estou fazendo segurança aqui da van e o vagabundo queria me roubar!”
Pela varanda vejo a tal van branca saindo da rua. Tento ver a placa mas não consigo. A van sai de marcha ré e segue pela rua. Ligo para minha esposa, que estava na rua, para saber onde ela está. Ela diz que acabou de entrar na garagem.
“Meu Deus!”, penso. “Ela acabou de passar pela linha de tiro. Não sei se pouquíssimos minutos antes ou pouquíssimos minutos depois”. A entrada da minha garagem fica bem na linha de tiro entre o suposto “policial” e o suposto “vagabundo” contra o qual ele atirou. Poucos segundos garantiram que minha esposa chegasse ilesa em casa.
Ela não viu, nem ouviu os tiros. Possivelmente, ela chegou poucos minutos (ou segundos) depois do tiroteio. Minha esposa chega bem em casa, pela graça de Deus.
Desço e converso com as pessoas que viram tudo. O homem sacou uma pistola e atirou no suposto ladrão. Depois, ele e as pessoas que estavam com ele, recolheram as cápsulas deflagradas do chão e taparam a placa do veículo com um adesivo, antes de saírem do local do crime.
Pouco depois fico sabendo que o tal bandido foi atingido e está caído na frente de uma escola, que fica um pouco mais acima, na mesma rua. Pedestres chamam os bombeiros e eu ligo para a polícia. Passa-se meia hora e ninguém chega.
Saio pelas ruas do bairro e procuro uma patrulha. É nessas horas que você percebe como é difícil achar um policial militar, quando se precisa deles. Acho um carro parado há cinco quarteirões e os comunico sobre a ocorrência.
Volto ao local onde a vítima está caída. Os bombeiros e a polícia já estão lá, cerca de 50 minutos depois do tiroteio. O rapaz ferido já havia sido recolhido à ambulância. Ouço algumas pessoas comentando que os bombeiros não precisavam tê-lo socorrido e podiam tê-lo deixado sangrando no chão.
Vou até a janela da patrulha e digo aos policiais que meu prédio tem câmeras que podem ter capturado a ocorrência. Também relato o que ouvi do atirador. (que ele era policial e estava fazendo segurança da van). Os PMs parecem pouco interessados no que eu tenho a dizer. Um deles diz apenas: “Quer saber? Acho que ele [o cara que atirou] não está errado, não. O outro [que foi baleado] disse que só estava pedindo dinheiro. Se ele tivesse só pedindo dinheiro, o cara não teria dado cinco tiros nele”.
Eu respondo: “A questão não é essa. O cara [que levou o tiro] está errado de tentar roubar [se é que ele estava mesmo]. Mas o outro está mais errado ainda de dar cinco tiros numa rua dessas. Tem uma creche e uma escola aqui nessa rua [o tiro foi dado na direção dessas duas unidades escolares]. Podia ter atingido uma criança. Por pouco minha esposa não foi atingida”.
O outro diz: “Tá tudo muito banalizado!”.
Eu respondo: “Independente dele ser policial ou não [e se ele for policial está duplamente errado, em dar tiro a esmo e em fazer segurança ilegalmente]. Ele não tem que sair atirando no meio da rua”.
O primeiro policial faz uma cara de bunda, como se não estivesse com paciência para nada.
Digo apenas: “Faz o seguinte. Quando vocês forem registrar o caso na delegacia, digam apenas que meu prédio tem câmeras que podem ter registrado a ação. Estamos a disposição para ceder as imagens, se for preciso”.
O policial (da cara de bunda) diz: “Olha, isso não vai dar em nada, não. Mas me diz teu nome e teu telefone”.
Digo meu número e me despeço dos policiais.
Volto para casa desiludido. Houve uma tentativa de homicídio (ninguém reage a um assalto em que o bandido não está armado com cinco tiros), o risco de incolumidade física de pessoas inocentes (e crianças), o uso indevido de arma de fogo e a destruição da cena do crime. Tudo isso possivelmente envolvendo um agente da lei. E os PMs estava tratando como se fosse uma ocorrência de reclamação por excesso de barulho ou briga de vizinhos.
Mas também entendi o desinteresse dos policiais. Todos os dias, centenas de tiros são disparados na cidade do Rio de Janeiro. Grande parte deles pela própria polícia (de serviço ou de folga). Não dá para ficar investigando cada vez que alguém aperta uma gatilho numa rua da cidade. Mesmo que esse tiro atinja alguém.
Ao mesmo tempo, pelo meu ponto de vista, é justamente porque ninguém investiga os disparos de armas de fogo no Rio de Janeiro (e no Brasil) que essa atitude tornou-se tão banal. É muito fácil puxar meu revólver ou pistola da cintura e brincar de bangue-bangue nas ruas.
Não é possível dizer em que momento ficamos tão bestializados a ponto de aceitar essa situação de caos social como um fato corriqueiro em nossas vidas. Em que momento das nossas vidas aceitamos que um policial diga “bem feito para esse vagabundo. Se ele tentou roubar alguém. Mereceu levar cinco tiros”.
Não vou entrar no mérito de que há um limite para a legítima defesa e que no Brasil não existe pena de morte. E ainda que existisse (como nos EUA ou no Irã), o réu teria que passar por um julgamento para ser condenado.
Só pergunto: e as crianças nas ruas? E nossas esposas, pais, irmãos, filhos, sobrinhos que nada tem a ver com o “vagabundo” que teve o azar de assaltar outro “vagabundo” mais poderoso que ele?
Será uma simples fatalidade se nossos entes queridos forem atingidos por uma bala perdida? Terá sido o acaso, como uma amêndoa que desaba sobre o capô de nossos carros, um cocô de pombo que cai nas nossas cabeças ou um banho de água suja num ponto de ônibus num dia de chuva?
É normal termos que nos preocupar com alguém, que, a qualquer momento, pode decidir se defender de um assalto e dar uma saraivada de tiros na rua, acabando com nossas vidas?
No Rio de Janeiro, centenas de pessoas morrem anualmente vítimas de balas perdidas. Outras milhares (algo em torno de 5 a 6 mil) são deliberadamente assassinadas, porque algumas pessoas se arrogam do direito de ter mais direito do que as outras e extinguir vidas.
E tudo isso ocorre perante uma polícia impassível. Assoberbada por crimes que ela mesmo alimenta com sua inépcia (preventiva, repressiva e investigativa). Algo em torno de apenas 5% a 20% dos casos de letalidade violenta são esclarecidos pelas polícias do Brasil.
Arrisco-me a dizer que de 60% a 70% desses casos sequer são investigados. São registros de ocorrência que nem saem das gavetas da “investigação preliminar” (nome pomposo para a seção da polícia que digita sua ocorrência e pede para você assinar seu testemunho) da Polícia Civil.
Se formos considerar também os casos de balas perdidas e de tentativas de homicídio, o número de investigações é ainda menor.
Nos casos de auto de resistência, quando a polícia assassina alguém em suposta legítima defesa, o índice de investigação é mais pífio ainda.
Os milhares de tiros que são disparados nas cidades mas que, por puro acaso, não atingem ninguém, então, sequer merecem uma “investigação preliminar”.
Como acabar com isso? Autoridades policiais, por favor, comecem a se incomodar com tiros que são dados a esmo na cidade. Em um primeiro momento, vocês terão um trabalho infinito de levar esses casos adiante. Parecerá impossível e será mesmo impossível.
Mas só se incomodando com essa situação, vocês vão conseguir reduzir as mortes por balas perdidas, as tentativas de homicídio e os homicídios no país. E, dentro de cinco a dez anos, vocês terão menos trabalho a fazer, porque haverá menos crimes a solucionar. E quanto menos crime para solucionar, mas fácil será solucionar os crimes esporádicos que ocorrerem.
Aos policiais que saem dando tiro pelas ruas, peço que parem de fazer isso. Pode parecer óbvio, mas quanto menos vocês fizerem isso, menos trabalho vocês vão ter, menos gente vai ficar ferida e menos gente vai morrer. Seus filhos e netos poderão andar mais tranquilos pelas ruas, tendo que se preocupar apenas com amêndoas, cocôs de pombo e banhos de lama, sem o risco de uma bala perdida achar algum órgão vital seu e encerrar suas vidas.
Ps.: Aposto que jamais serei procurado pela Polícia Civil para solicitar as imagens da câmera do meu edifício.
Na tensão, não consigo contar o número de tiros. Não sei se foram três, quatro ou cinco. Escuto um homem gritando lá fora. “Calma, calma. Sou policial. Estou fazendo segurança aqui da van e o vagabundo queria me roubar!”
Pela varanda vejo a tal van branca saindo da rua. Tento ver a placa mas não consigo. A van sai de marcha ré e segue pela rua. Ligo para minha esposa, que estava na rua, para saber onde ela está. Ela diz que acabou de entrar na garagem.
“Meu Deus!”, penso. “Ela acabou de passar pela linha de tiro. Não sei se pouquíssimos minutos antes ou pouquíssimos minutos depois”. A entrada da minha garagem fica bem na linha de tiro entre o suposto “policial” e o suposto “vagabundo” contra o qual ele atirou. Poucos segundos garantiram que minha esposa chegasse ilesa em casa.
Ela não viu, nem ouviu os tiros. Possivelmente, ela chegou poucos minutos (ou segundos) depois do tiroteio. Minha esposa chega bem em casa, pela graça de Deus.
Desço e converso com as pessoas que viram tudo. O homem sacou uma pistola e atirou no suposto ladrão. Depois, ele e as pessoas que estavam com ele, recolheram as cápsulas deflagradas do chão e taparam a placa do veículo com um adesivo, antes de saírem do local do crime.
Pouco depois fico sabendo que o tal bandido foi atingido e está caído na frente de uma escola, que fica um pouco mais acima, na mesma rua. Pedestres chamam os bombeiros e eu ligo para a polícia. Passa-se meia hora e ninguém chega.
Saio pelas ruas do bairro e procuro uma patrulha. É nessas horas que você percebe como é difícil achar um policial militar, quando se precisa deles. Acho um carro parado há cinco quarteirões e os comunico sobre a ocorrência.
Volto ao local onde a vítima está caída. Os bombeiros e a polícia já estão lá, cerca de 50 minutos depois do tiroteio. O rapaz ferido já havia sido recolhido à ambulância. Ouço algumas pessoas comentando que os bombeiros não precisavam tê-lo socorrido e podiam tê-lo deixado sangrando no chão.
Vou até a janela da patrulha e digo aos policiais que meu prédio tem câmeras que podem ter capturado a ocorrência. Também relato o que ouvi do atirador. (que ele era policial e estava fazendo segurança da van). Os PMs parecem pouco interessados no que eu tenho a dizer. Um deles diz apenas: “Quer saber? Acho que ele [o cara que atirou] não está errado, não. O outro [que foi baleado] disse que só estava pedindo dinheiro. Se ele tivesse só pedindo dinheiro, o cara não teria dado cinco tiros nele”.
Eu respondo: “A questão não é essa. O cara [que levou o tiro] está errado de tentar roubar [se é que ele estava mesmo]. Mas o outro está mais errado ainda de dar cinco tiros numa rua dessas. Tem uma creche e uma escola aqui nessa rua [o tiro foi dado na direção dessas duas unidades escolares]. Podia ter atingido uma criança. Por pouco minha esposa não foi atingida”.
O outro diz: “Tá tudo muito banalizado!”.
Eu respondo: “Independente dele ser policial ou não [e se ele for policial está duplamente errado, em dar tiro a esmo e em fazer segurança ilegalmente]. Ele não tem que sair atirando no meio da rua”.
O primeiro policial faz uma cara de bunda, como se não estivesse com paciência para nada.
Digo apenas: “Faz o seguinte. Quando vocês forem registrar o caso na delegacia, digam apenas que meu prédio tem câmeras que podem ter registrado a ação. Estamos a disposição para ceder as imagens, se for preciso”.
O policial (da cara de bunda) diz: “Olha, isso não vai dar em nada, não. Mas me diz teu nome e teu telefone”.
Digo meu número e me despeço dos policiais.
Volto para casa desiludido. Houve uma tentativa de homicídio (ninguém reage a um assalto em que o bandido não está armado com cinco tiros), o risco de incolumidade física de pessoas inocentes (e crianças), o uso indevido de arma de fogo e a destruição da cena do crime. Tudo isso possivelmente envolvendo um agente da lei. E os PMs estava tratando como se fosse uma ocorrência de reclamação por excesso de barulho ou briga de vizinhos.
Mas também entendi o desinteresse dos policiais. Todos os dias, centenas de tiros são disparados na cidade do Rio de Janeiro. Grande parte deles pela própria polícia (de serviço ou de folga). Não dá para ficar investigando cada vez que alguém aperta uma gatilho numa rua da cidade. Mesmo que esse tiro atinja alguém.
Ao mesmo tempo, pelo meu ponto de vista, é justamente porque ninguém investiga os disparos de armas de fogo no Rio de Janeiro (e no Brasil) que essa atitude tornou-se tão banal. É muito fácil puxar meu revólver ou pistola da cintura e brincar de bangue-bangue nas ruas.
Não é possível dizer em que momento ficamos tão bestializados a ponto de aceitar essa situação de caos social como um fato corriqueiro em nossas vidas. Em que momento das nossas vidas aceitamos que um policial diga “bem feito para esse vagabundo. Se ele tentou roubar alguém. Mereceu levar cinco tiros”.
Não vou entrar no mérito de que há um limite para a legítima defesa e que no Brasil não existe pena de morte. E ainda que existisse (como nos EUA ou no Irã), o réu teria que passar por um julgamento para ser condenado.
Só pergunto: e as crianças nas ruas? E nossas esposas, pais, irmãos, filhos, sobrinhos que nada tem a ver com o “vagabundo” que teve o azar de assaltar outro “vagabundo” mais poderoso que ele?
Será uma simples fatalidade se nossos entes queridos forem atingidos por uma bala perdida? Terá sido o acaso, como uma amêndoa que desaba sobre o capô de nossos carros, um cocô de pombo que cai nas nossas cabeças ou um banho de água suja num ponto de ônibus num dia de chuva?
É normal termos que nos preocupar com alguém, que, a qualquer momento, pode decidir se defender de um assalto e dar uma saraivada de tiros na rua, acabando com nossas vidas?
No Rio de Janeiro, centenas de pessoas morrem anualmente vítimas de balas perdidas. Outras milhares (algo em torno de 5 a 6 mil) são deliberadamente assassinadas, porque algumas pessoas se arrogam do direito de ter mais direito do que as outras e extinguir vidas.
E tudo isso ocorre perante uma polícia impassível. Assoberbada por crimes que ela mesmo alimenta com sua inépcia (preventiva, repressiva e investigativa). Algo em torno de apenas 5% a 20% dos casos de letalidade violenta são esclarecidos pelas polícias do Brasil.
Arrisco-me a dizer que de 60% a 70% desses casos sequer são investigados. São registros de ocorrência que nem saem das gavetas da “investigação preliminar” (nome pomposo para a seção da polícia que digita sua ocorrência e pede para você assinar seu testemunho) da Polícia Civil.
Se formos considerar também os casos de balas perdidas e de tentativas de homicídio, o número de investigações é ainda menor.
Nos casos de auto de resistência, quando a polícia assassina alguém em suposta legítima defesa, o índice de investigação é mais pífio ainda.
Os milhares de tiros que são disparados nas cidades mas que, por puro acaso, não atingem ninguém, então, sequer merecem uma “investigação preliminar”.
Como acabar com isso? Autoridades policiais, por favor, comecem a se incomodar com tiros que são dados a esmo na cidade. Em um primeiro momento, vocês terão um trabalho infinito de levar esses casos adiante. Parecerá impossível e será mesmo impossível.
Mas só se incomodando com essa situação, vocês vão conseguir reduzir as mortes por balas perdidas, as tentativas de homicídio e os homicídios no país. E, dentro de cinco a dez anos, vocês terão menos trabalho a fazer, porque haverá menos crimes a solucionar. E quanto menos crime para solucionar, mas fácil será solucionar os crimes esporádicos que ocorrerem.
Aos policiais que saem dando tiro pelas ruas, peço que parem de fazer isso. Pode parecer óbvio, mas quanto menos vocês fizerem isso, menos trabalho vocês vão ter, menos gente vai ficar ferida e menos gente vai morrer. Seus filhos e netos poderão andar mais tranquilos pelas ruas, tendo que se preocupar apenas com amêndoas, cocôs de pombo e banhos de lama, sem o risco de uma bala perdida achar algum órgão vital seu e encerrar suas vidas.
Ps.: Aposto que jamais serei procurado pela Polícia Civil para solicitar as imagens da câmera do meu edifício.
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