sábado, 1 de novembro de 2025
VENDE-SE CARNE HUMANA: REFLEXÕES SOBRE A OPERAÇÃO DO ALEMÃO (OUT/25)
Vocês querem mais uma opinião sobre as 121 mortes do Complexo do Alemão?
Provavelmente não. Eu mesmo não quero.
Há quatro meses eu deixei o jornalismo diário justamente porque esses assuntos me esgotam mentalmente.
Mas mesmo tentando me manter afastado, acabei sendo tragado para este assunto. Um dos motivos foi que meu trabalho me demandou isso. Ao deixar a agência de notícias onde trabalhei por 21 anos com noticiário do dia-a-dia, assumi a posição de produtor de um programa jornalístico (especial, não diário) de uma emissora de televisão.
Outro motivo foi ver que isso, de repente, se tornou um assunto onipresente nas conversas entre amigos e familiares, no noticiário nacional e nas postagens em redes sociais.
De repente, todos parecem ter alguma opinião sobre o assunto. E não há nenhum problema nisso. É saudável que os cidadãos reflitam e tenham opiniões sobre assuntos que afetam suas vidas. O problema é que a maioria das opiniões que vi não são fundamentadas. São apenas o extravasamento de sentimentos humanos (medo, raiva, indignação, ansiedade, traumas), baseado em pouca ou nenhuma reflexão.
Por ter que lidar com esse assunto até dentro da minha casa, me obriguei, contra minha vontade a parar e refletir sobre o assunto.
Sim, eu sou um "especialista" no assunto. Pelo menos academicamente me credencio ao título.
Mas não quero soar presunçoso e me igualar a outros que se acham no direito de ter a primazia sobre o debate. Muitos policiais, por exemplo, acham que, por lidar no dia-a-dia com registros criminais, investigações, cumprimentos de mandados e patrulhamento de ruas, têm a credencial para ser a única voz legítima para opinar sobre políticas de segurança pública e justiça criminal.
Que, por laborarem no dia-a-dia com o crime, são os únicos detentores do conhecimento da segurança pública e das soluções para controlar a insegurança e a violência.
Policiais têm sim um grande conhecimento na área de segurança pública e têm muito a acrescentar no debate, mas esse não é um problema que afeta apenas a polícia. Ele afeta a todos e todos que refletem minimamente sobre o assunto têm direito de opinar.
Eu, por exemplo, além de ter estudado sobre o assunto, passei anos cobrindo essa temática, o que inclui inúmeras entrevistas com autoridades, conversas informais com policiais, presença em operações da polícia (inclusive colocando a cara na linha de frente de confrontos armados. Isso sem empunhar uma arma ou um distintivo).
Mas apenas por ser carioca, tendo vivido todos meus 44 anos na cidade, eu já me credenciaria ao debate, simplesmente por viver tudo isso e ter o mínimo de senso crítico.
E meu senso crítico me faz tecer algumas reflexões:
1) A polícia vai investigar todas as 121 mortes de forma equilibrada e imparcial, como a lei determina? Ou vai fazer isso apenas com os assassinatos dos 4 policiais?
2) O Estado tem capacidade de fazer tal investigação?
3) O Estado tem interesse em saber se as 117 mortes de não policiais foram legítimas e ocorreram dentro dos limites legais?
4) Alguma autoridade pública reconhece a possibilidade de existirem mortes ilegítimas dentro desses 117 casos?
5) Dentre as possíveis mortes ilegítimas, alguma autoridade pública reconhece que inocentes (pessoas sem qualquer vínculo com a facção criminosa) podem ter sido assassinados, por engano ou por motivos torpes?
6) A polícia entende que, ainda que no meio dos 117 mortos haja pessoas com antecedentes criminais, elas podem não ter relação com a facção criminosa que domina o complexo do Alemão?
7) A polícia entende que, ainda que no meio dos 117 mortos haja pessoas com ligação direta com a facção criminosa, elas podem não ter estado envolvidas diretamente com confrontos armados naquele dia?
8) A polícia entende que, ainda que no meio dos 117 mortos haja pessoas que estavam confrontando a polícia, por meio armado, elas podem ter se rendido ou entrado em fuga (sem ameaçar imediatamente a vida do policial ou de outrem) no momento em que foram mortas? E que é ilegal matar pessoas rendidas, desarmadas ou em fuga, se elas não estiverem ameaçando a vida de ninguém naquele momento?
9) A polícia entende que, dentre as 117 mortes pode tanto haver casos de mortes de inocentes quanto execuções ilegais de criminosos?
10) A polícia entende que é preciso invetigar e punir rigorosamente agentes que tenham matado ilegalmente (inocentes ou criminosos)?
11) A polícia entende que ter ficha corrida e mandado de prisão em aberto não são motivos suficientes para a execução de uma pessoa?
12) A polícia entende que o monopólio estatal do uso da força não é sinônimo de legitimidade para matar alguém que não esteja em confronto naquele instante ou ameaçando naquele instante a vida de alguém?
13) A polícia entende que correr, ser preto, estar em qualquer lugar da favela, buscar se proteger, estar trancado dentro de sua casa, transitar por áreas públicas ou usar qualquer tipo de vestimenta no momento de uma operação policial não são justificativas para ser morto por um policial?
14) A polícia entende que há imensos riscos para a vida dos agentes policiais ao entrar em uma área controlada por criminosos (por incompetência histórica do Estado e dos próprios órgãos policiais)?
14.a) Os policiais entendem que sua vida está em risco a cada vez que entram em uma favela ocupada por homens armados (que atirarão para impedir ou retardar o avanço policial no território)?
14.b) Os policiais entendem que sua entrada na favela é apenas um paintball com balas de verdade? Um jogo no qual não há vitória permanente, apenas um sentimento de que se ganhou naquele dia, mas que de nada adiantará? Uma encenação macabra em que se mata e se morre a troco de nada? Um jogo de xadrez em que os peões são os próprios policiais, os criminosos e os moradores da favela, enquanto os jogadores são políticos que não têm coragem de sujar suas mãos de sangue diretamente?
15) Os policiais entendem que o mandato que lhes é concedido para o monopólio do uso da força é limitado pela lei, justificado pela legitimidade e vetado para usos pessoais por qualquer motivo (ganhos financeiros, promoção pessoal ou mesmo para vingança pela morte de companheiros)?
16) A polícia entende que, por mais vis, cruéis e desumanos que sejam os criminosos, a atuação dos policiais precisa ser pautada pela legalidade?
17) A policia entende que bandidos não têm régua de moralidade e nem precisam se submeter à legalidade (porque afinal eles são criminosos), mas que os agentes do Estado obrigatoriamente precisam se ater à lei (porque afinal não são criminosos)?
18) A polícia entende que, se seus agentes não seguirem a lei, eles estarão cometendo crimes? E que quem comete crime está sujeito às mesmas leis a que os criminosos e o restante dos cidadãos estão submetidos?
19) Os cidadãos entendem que é importante que a polícia tenha sua atuação restringida pela lei?
20) Os cidadãos entendem que nossa sociedade, por meio das leis e da Constituição, regula a atividade policial?
21) Os cidadãos entendem que nossa sociedade, por meio das leis e da Constituição, decidiu proibir a pena de morte?
22) Os cidadãos entendem que a proibição à pena de morte tem relação com a valorização da vida humana e a proteção aos cidadãos (para que não percam sua vida por um julgamento injusto)?
23) Os cidadãos entendem que se nossa sociedade não permite a pena de morte como punição para crimes, o Estado não pode matar ninguém pelo crime cometido por essa pessoa? E que o Estado ou mesmo o cidadão comum só pode matar algum cidadão em caso de ameaça imediata à vida de alguém?
24) Os cidadãos entendem que todos são iguais perante a lei e que todos devem ter o mesmo tratamento, independentemente da questão social, econômica, racial, regional etc?
25) O cidadão entende que a polícia não pode ter carta branca para matar ninguém, porque isso é proibido pelas nossas leis?
26) Os cidadãos entendem que devemos controlar a polícia para que ela não extrapole os limites legais impostos a ela em relação à vida humana de quem quer que seja?
27) Os cidadãos entendem que, ao permitir que a polícia aja fora da lei, estaremos dando carta branca para a polícia? E que essa carta branca significa que a polícia pode fazer o que bem entender, inclusive ações ilegais?
28) Os cidadãos entendem que a lei é o limite contra abusos e que permitir que a polícia haja fora da lei é permitir que a polícia cometa abusos?
29) Os cidadãos entendem que se não houver limites contra abusos não haverá nada para protegê-los contra esses abusos?
30) Os cidadãos entendem que a falta de limites os deixa vulneráveis aos excessos, abusos e violências?
31) Os cidadãos entendem que não é possível permitir excessos policiais contra outros cidadãos e ao mesmo tempo manter-se imune a esses excessos?
32) O cidadão entende que há incontáveis casos de pessoas inocentes mortas e feridas por excessos cometidos por policiais, inclusive crianças? A maioria nas favelas mas também no asfalto?
33) Estamos todos dispostos a aplaudir a morte de pessoas, sob o risco de sermos as próximas vítimas?
34) Se estamos dispostos a isso, não quero criar meu filho nessa sociedade.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022
CRÔNICA DE UMA MADRUGADA QUALQUER DE CRIME NO RIO
A história que vou contar hoje, é uma história de investigação, de polícia, de crime, de Rio de Janeiro... Ela aconteceu de verdade. E aconteceu recentemente. Não vou dizer o dia porque não quero identificar os personagens.
Nesse dia qualquer, acordei às 4h20 da manhã, sobressaltado, com o barulho de metal sendo despedaçado na rua. Sempre quando escuto isso, me preocupo de que estão invadindo o meu prédio. Afinal, invasão de prédios durante a madrugada para furto de produtos de metal (e outras coisas mais valiosas como bicicletas) virou algo rotineiro nos últimos anos, na região da Tijuca e em vários outros pontos da cidade do Rio de Janeiro.
Olho pela janela e vejo dois ladrões, na calçada sob o meu edifício, estraçalhando o que parece ser uma janela de alumínio, recém-furtada de algum lugar que não sei qual é. Em questão de segundos, eles desmontam toda a esquadria e saem com os pedaços de alumínio sobre os ombros pela rua.
Resolvo fazer algo que já pensava em fazer há algum tempo. Troco de roupa, pego a chave do carro e saio pela rua, tentando ver onde os ladrões vão levar aquele material. Perco-os de vista, mas tenho uma ideia de onde eles podem estar indo. Então, faço a volta na Uerj, e sigo em direção à Mangueira.
Já na Uerj vejo não aqueles que desmontaram a janela de alumínio, mas outras três pessoas diferentes, carregando cada uma, seu butim de uma madrugada sem lei no Rio de Janeiro, numa espécie de procissão criminosa rumo ao ganho financeiro do dia. Um deles, tem apenas uma viga de metal, mais na frente outro é mais ousado. Carrega algo do tamanho de um portão em cima da cabeça.
Exatamente, do outro lado da rua, há uma patrulha da PM. Um dos policiais ronca dentro do carro. O outro está escondido atrás do veículo (mas já vou chegar neles).
Aproveito que o sinal fecha, entre a São Francisco Xavier e a Radial Oeste, para dar um tempo pra ver onde aqueles homens vão despachar suas mercadorias furtadas da casa de alguém. Eu já estava filmando o homem carregando o trambolho na cabeça, mas resolvo agora filmar o cidadão que carrega a humilde viga de metal. Não escondo o celular, faço questão que ele veja que estou gravando a fuça dele.
Ele se abaixa e pega uma pedra para jogar no meu carro. É a deixa para eu acelerar o carro. Estou numa “investigação” mas não quero ter meu carro danificado.
Baixo o celular para dirigir mas logo vejo para onde eles estão indo. Uma pequena garagem no que sobrou da favela do Metrô (aquela que deveria ter sido desmontada e seus moradores direcionados para moradias dignas). Está todo mundo ali. Os ladrões e os receptadores, a 100 metros de uma patrulha da PM. Sem esconder nada.
Faço a volta e retorno à Uerj para conversar com os policiais. Na verdade, com o policial, já que um deles aproveita o horário de trabalho para dormir. O PM fica meio ressabiado atrás da viatura quando eu saio do carro. Faço questão de dar bom dia antes que ele me confunda com um bandido (não preciso dizer o que pode acontecer nesses casos).
E começo a explicar tudo o que vi pro PM. Sua primeira reação, quando eu disse que várias pessoas estavam passando por ali com produtos de metal furtados, foi: “Por aqui não passou ninguém não”.
“Como não? Acabei de filmar um cara passando com um pedaço de metal. Ele até pegou uma pedra pra tacar no meu carro... Aqui em frente, do outro lado da rua. E mais. Eles estão indo prali, um ferro-velho ali na favela do Metrô”.
Quase falo, se você sair daí de trás da viatura e ir até o meio-fio, vai ver toda a trambicagem rolando solta...
Ele diz que não pode fazer nada. Tem que ligar pro 190.
Eu já sabia que ele não ia fazer nada. Ele tá só querendo ficar sossegado atrás da viatura até a hora de acabar seu turno. E ele não vai acordar o dorminhoco dentro da viatura pra checar uma denúncia dessas...
Respondo que não vai adiantar nada. Quando o 190 acionar uma patrulha, o ferro-velho já vai ter fechado. Então vou pra DP.
Acredite. Não ando nem mais 100 metros. A 20a DP, de Vila Isabel, fica na rua Luís de Matos, uma rua que desemboca quase em frente de onde o homem com a viga de metal me ameaçou com uma pedra.
Antes de entrar na delegacia, vejo um grupo de PMs parados em frente a DP, talvez uns cinco ou seis. Já imagino que vou ter que esperar algumas horas pra ser atendido, porque penso que teve alguma operação policial e que eles devem estar fazendo o registro de ocorrência.
Mas não. A delegacia está vazia. Os PMs só tão fazendo hora ali mesmo. Provavelmente também passando tempo até seu turno acabar.
Dentro da delegacia, um sujeito sentado, de calças de moleton e chinelos Rider (ou algo do tipo).
“Posso ajudar?”
Então explico tudo o que vi, mais uma vez. Falo que logo ali, está rolando um flagrante daquilo que virou uma pandemia no Rio de Janeiro, antes da covid. O furto de produtos de metal não ocorre apenas dentro de edifícios. Todos os dias, cabos de luz e de sinais de trânsito são afanados em busca de um ganho rápido.
É só chegar ali e dar o flagrante de receptação.
Ele me encara, com um olhar condescendente, mas sem qualquer sinal de que vai levantar a bunda do sofá pra fazer qualquer coisa.
“Você mora onde?”
Digo a rua.
“Mas eu não fui furtado. Eu só vi os caras desmontando a janela e resolvi descobrir onde eles vendiam essas coisas. Tenho medo que invadam meu condomínio”
Expliquei que meu prédio já tinha sido invadido algumas vezes. Minha preocupação não é com bens materiais. Meu medo é que eles arranquem alguma coisa elétrica ou de tubulação de gás e isso coloque em risco todos os moradores. Digo que já aconteceram coisas assim na região.
Só quero que ele se empenhe em começar a fazer alguma coisa. Que ele vá até o ferro-velho, sei lá. Na verdade, a essa hora, eu já me sinto um idiota paranoico, que está fazendo uma tempestade num copo d'água por causa de alguns furtos bestas na região.
Digo onde está o ferro-velho. E então sinto o alívio imediato na cara do inspetor.
“Ah, ali? Na Favela do Metrô?”. Era a desculpa que ele queria para voltar pro sossego do seu celular. “Ali nem é área nossa. É área da 18a DP”...
A 18a DP fica na Praça da Bandeira, a mais de 4 quilômetros dali. Mas, enfim é área de outra DP, o inspetor podia ficar em paz com a sua consciência.
E o inspetor conclui. “Mas nem adianta fazer nada. A gente já prendeu o dono desse ferro-velho e ele tá solto de novo. Os policiais aí acabaram de trazer um vagabundo que tava roubando essas coisas, mas não vai dar em nada. Só mesmo matando esses filhos da puta”.
“Olha, vou te dizer uma coisa”, eu respondo. “Se a Polícia Civil fizesse o que tô fazendo, conseguia resolver melhor. Pega uma madrugada aí, monta uma campana numa dessas ruas. Pega os caras roubando, filma tudo, segue eles até o ferro-velho. Filma eles vendendo os produtos furtados e pronto. Já tem um caso pra Justiça. Realmente pegar esses pés-rapados e trazer pra Delegacia não vai adiantar nada. Mas o ferro-velho tá ali, funcionando pertinho”.
Ele só concorda. E me despacha em silêncio. Seus olhos já querem voltar pro celular.
Já são umas 15 pras cinco. Tudo aconteceu muito rápido, mas não quero mais perder tempo. Sei que dali não vai sair nada. Percebo que ele está sozinho ali. Não entendo de plantões policiais, mas imagino que policiais não devem cuidar sozinhos de uma delegacia. Será que os colegas estão ali dormindo? Será que estão dormindo em casa? Será que estão em diligência num investigação super relevante? Será que estão investigando os receptadores de metal furtado (hahaha)? Não sei. Mas também não pergunto mais.
E sozinho ele não vai fazer nada.
Saio na rua e faço uma última tentativa, com os PMs que estão conversando do lado de fora da delegacia. Eu sei, sou um sonhador... Mas sei lá, eles estão num grupo maior do que o PM escondido atrás da viatura. De repente, eles querem ação. Vai que...
Interpelo os PMs e, mais uma vez, explico tudo. Um deles, que parecia um dublê mal-ajambrado de Vin Diesel, nem deixa eu terminar de falar.
“Irmão, a gente acabou de prender uns 6 aí... Não adianta ir nesse ferro-velho, não. O cara tá só comprando, não tá roubando...”
“Mas não seria receptação?”, eu tento, na esperança de que ele saiba o que é receptação.
Ele é pego meio fora de guarda...
“E também tem uma lei nova, justamente por causa desses casos de furto. Os produtos precisam ter comprovante de procedência, nota fiscal, essas coisas”. Na verdade, não conheço muito a lei, mas sei que aprovaram algumas restrições para ferros-velhos, devido às denúncias mostradas diariamente na TV Globo. A lei em questão é Lei Complementar Municipal 236/2021, mas na hora eu não sabia.
E aí vem aquela famosa saída pela tangente.
“É, cara, tem que falar com a Polícia Civil mesmo...”
Ele talvez não tivesse percebido, mas eu tinha acabado de sair de uma delegacia e tudo que encontrei foi um agente de pijamas na recepção.
Chego em casa antes das 5h. Às 6h tenho que começar a trabalhar, então não vou conseguir dormir. Numa última tentativa pra não parecer um completo fracassado, ligo pro 190. Explico a história de novo, dou a localização do ferro-velho e, enquanto tento explicar os perigos dessas invasões e por que estou tão preocupado, o operador me corta, dando-me um protocolo e dizendo que vai dar encaminhamento pra minha denúncia.
Desligo o telefone, preparo um toddy e vou pra varanda. Ali de cima, olho pra calçada. Pelo menos agora não tem ninguém fazendo barulho, enquanto desmonta uma janela roubada.
terça-feira, 24 de setembro de 2019
O POLICIAL E O PEDESTAL DA VILA KENNEDY
Na semana passada, vimos o vídeo (veja abaixo) de um policial dando bronca em um morador de comunidade do Rio (Vila Kennedy) que estava na garupa de uma moto com um pedestal de microfone.
Na lógica enviesada do policial, o morador estava se arriscando a levar um tiro da polícia porque o pedestal parecia um microfone.
À primeira vista, parece apenas um policial preocupado com um cidadão. Mas, refletindo-se um pouco mais profundamente, isso é sintoma de uma polícia que trabalha de forma errada e homicida.
O policial, em hipótese alguma, poderia atirar em alguém porque confundiu um pedestal com um fuzil. Policial não pode atirar em alguém apenas porque está com uma arma, sem que haja uma ameaça clara à sua vida ou à vida de terceiras pessoas, quem dirá atirar em alguém que está com um objeto que parece uma arma.
Policial também não pode atirar em ninguém que pareça suspeito, alguém que fuja de uma blitz ou em alguém que esteja cometendo um crime sem que esteja colocando a vida de ninguém em risco imediato.
Alguns dias depois, uma menina de 8 anos foi assassinada no Complexo do Alemão. Tudo indica que os policiais atiraram em uma moto com “suspeitos” (sob a alegação não sustentada até o momento de que foram alvejados) e o tiro foi parar numa Kombi e nas costas de uma criança.
Alguém aí percebeu como as duas coisas estão conectadas? O policial dizendo que o morador não pode andar com um pedestal e uma criança morta dentro de uma kombi?
Ambas são resultado de um modus operandi violento da polícia, que por sua vez é fruto de uma sociedade violenta e de um governador homicida (que manda policiais atirarem na cabecinha de pessoas).
Por mais que você esteja de saco cheio da violência, assim como eu e 99,99% dos brasileiros estão, não é assim que a violência será resolvida. Aliás, se você for sensato o suficiente verá que isso está apenas amplificando a violência, sem qualquer sinal de aplacá-la no futuro. Afinal, se o Estado não tivesse atirado para acertar um suposto bandido, a violência contra a criança do Complexo do Alemão, por exemplo, não teria ocorrido.
A menina foi morta, provavelmente pelo Estado. E os bandidos do Complexo do Alemão? Bem, esses continuam por lá, provavelmente com a anuência da corrupção estatal.
Na lógica enviesada do policial, o morador estava se arriscando a levar um tiro da polícia porque o pedestal parecia um microfone.
À primeira vista, parece apenas um policial preocupado com um cidadão. Mas, refletindo-se um pouco mais profundamente, isso é sintoma de uma polícia que trabalha de forma errada e homicida.
O policial, em hipótese alguma, poderia atirar em alguém porque confundiu um pedestal com um fuzil. Policial não pode atirar em alguém apenas porque está com uma arma, sem que haja uma ameaça clara à sua vida ou à vida de terceiras pessoas, quem dirá atirar em alguém que está com um objeto que parece uma arma.
Policial também não pode atirar em ninguém que pareça suspeito, alguém que fuja de uma blitz ou em alguém que esteja cometendo um crime sem que esteja colocando a vida de ninguém em risco imediato.
Alguns dias depois, uma menina de 8 anos foi assassinada no Complexo do Alemão. Tudo indica que os policiais atiraram em uma moto com “suspeitos” (sob a alegação não sustentada até o momento de que foram alvejados) e o tiro foi parar numa Kombi e nas costas de uma criança.
Alguém aí percebeu como as duas coisas estão conectadas? O policial dizendo que o morador não pode andar com um pedestal e uma criança morta dentro de uma kombi?
Ambas são resultado de um modus operandi violento da polícia, que por sua vez é fruto de uma sociedade violenta e de um governador homicida (que manda policiais atirarem na cabecinha de pessoas).
Por mais que você esteja de saco cheio da violência, assim como eu e 99,99% dos brasileiros estão, não é assim que a violência será resolvida. Aliás, se você for sensato o suficiente verá que isso está apenas amplificando a violência, sem qualquer sinal de aplacá-la no futuro. Afinal, se o Estado não tivesse atirado para acertar um suposto bandido, a violência contra a criança do Complexo do Alemão, por exemplo, não teria ocorrido.
A menina foi morta, provavelmente pelo Estado. E os bandidos do Complexo do Alemão? Bem, esses continuam por lá, provavelmente com a anuência da corrupção estatal.
A FALÁCIA DE QUE TRÁFICO EXISTE PORQUE BRIZOLA NÃO DEIXAVA POLÍCIA ENTRAR NAS FAVELAS
Um jornalista tem a pouca vergonha de dizer que os traficantes ainda mandam nas favelas do Rio de Janeiro porque o governador Leonel Brizola "não deixava a polícia entrar na favela" (veja vídeo abaixo).
Deixa eu dizer uma coisa para esse profissional que ou é mal informado ou mal intencionado.
O início da consolidação do tráfico de drogas no estado do Rio de Janeiro se deu entre o fim da década de 70 e o início da década de 80, antes do governo Brizola (quem viu o filme Cidade de Deus, pode ver que ocorreu uma guerra na comunidade pelos pontos de vendas de drogas e isso era na década de 70).
Brizola foi governador de 1983 a 1987 e de 1991 a 1994. Independente de Brizola ter acertado ou errado em sua política de segurança, fora desses períodos, todos os governadores (e eu digo todos mesmo) apostaram na política de confronto, em que a polícia encarou o combate à criminalidade como uma guerra.
Eu pergunto para Lacombe se ele sabe qual foi o resultado das políticas de segurança que apostaram no embate frontal contra traficantes armados nas favelas nos anos de 1987 a 1991 e de 1994 a 2019...
Acho que ele e todos sabem a resposta. Se tivesse dado certo, não teríamos hoje um governo como Witzel fazendo a mesma coisa que todos os outros governadores fluminenses fizeram nos últimos 40 anos.
E com certeza Agatha não teria morrido.
segunda-feira, 23 de setembro de 2019
MAIS UMA CRIANÇA MORRE PORQUE GOVERNO INSISTE EM CONFUNDIR SEGURANÇA PÚBLICA COM GUERRA
Agatha é uma menina de 8 anos que morreu atingida por um disparo de arma de fogo.
Ela é a quinta criança morta no Rio de Janeiro, vítima de um tiro ocasionado por uma operação policial. Moradores dizem que a polícia atirou contra um suspeito e a bala atingiu a Kombi onde estava a criança, sem que houvesse uma troca de tiros.
É a quinta criança que morreu por causa de uma política de pseudossegurança que é calcada simplesmente no confronto armado.
E sabe por que nossa política é apenas calcada no confronto? Porque é uma política fácil de se fazer, porque atende aos anseios sanguinários da imprensa e de uma sociedade ignorante, porque não precisa atacar as causas da violência e, não menos importante, porque permite que todos os esquemas de corrupção envolvendo agentes do Estado continuem.
É mais fácil vender a imagem de que estamos em guerra e colocar a polícia todo dia entrando na favela e matando meia dúzia do que resolver problemas.
Todo mundo sabe que isso não resolve. Vivemos essa situação de confronto armado há décadas. Já tivemos governador dizendo que ia acabar com a violência em seis meses, já teve governador que disse que ia acabar com o tráfico até o fim do mandato, teve governador pagando bônus salarial pra policial que matasse mais gente e agora temos governador que fala pra atirar em qualquer que estiver portando uma arma.
Em comum a todos eles está o discurso fácil, a não resolução do problema e um número grande de mortes de inocentes nas costas.
É fácil pro governador mandar a polícia entrar todo dia na favela, prender um pé rapado, apreender uma arma velha e meia dúzia de trouxinhas de maconha. Não é ele que está se expondo ao risco de tomar um tiro.
É fácil pra sociedade como um todo aprovar esse teatro. Dá a sensação de que aquele bandido não vai mais te aceitar e não é seu filho que está morrendo nessa brincadeira de guerra.
E o policial? Bem, pra ele não é fácil participar desse teatro. Ele se expõe à morte toda vez que se confronta com criminosos armados. Mas muitos deles foram levados a pensar que estão lutando contra o crime e que vão vencer essa guerra se todo dia matarem os bandidos.
Bem, muitos já perceberam que isso não leva a nada. Mata um, entra outro no lugar. Sempte foi assim e se nada mudar na nossa sociedade, sempre será. Alguns deles são cínicos o suficiente pra ganhar dinheiro com essa pseudoguerra, vendendo armas, extorquindo bandidos, negociando proteção, e ainda assim achando que tem o direito de assassinar um criminoso de vez em quando.
Enfim, enquanto encararmos criminalidade como guerra muitas Agathas vão morrer.
sábado, 20 de janeiro de 2018
UM SÁBADO QUALQUER... NA MANGUEIRA
No dia 13 de janeiro de 2018, estava de plantão
na redação. Não era um plantão qualquer. Havia o velório e enterro de um grande
amigo de amigos queridos. Um delegado, amigo dos meus amigos, havia sido
assassinado. E, como repórter, não podia me furtar de cobrir a história, por
mais doloroso que fosse.
Não fui ao velório e ao sepultamento
para explorar a dor da família e dos amigos. Sou contrário a isso, sempre fui e
sempre serei. Reportar a dor dos familiares, apenas para conseguir uma foto ou
depoimento chorosos não presta para nada além da curiosidade mórbida de
espectadores que sentem alívio em ver que há pessoas numa situação pior que
eles próprios.
Fui para lá com o objetivo de falar com
o delegado que investigava o caso e com as autoridades. Sabia que elas estariam
lá, não para se solidarizar com os enlutados, mas para dar respostas inúteis a problemas
que eles não conseguem resolver.
Como se isso não fosse ruim o suficiente
para um plantão de sábado, uma operação policial ocorria na Mangueira. A coisa
aparentemente era feia. Moradores tinham descido para a rua Visconde de Niterói e feito
barricadas incendiárias. Um “suspeito” havia ficado ferido, bem como três
policiais militares.
Havia um intervalo entre o velório e o sepultamento.
Corri para a Mangueira, que fica mais ou menos no meio do caminho entre o
centro da cidade (local do velório) e o Caju (local do enterro).
Fiquei menos de meia hora no local. Mas
foi o suficiente para vivenciar o “sábado qualquer” na Mangueira.
O cheiro de fumaça de plástico e
borracha incediada invadia minhas narinas, enquanto via um capitão PM alucinado,
falando pelo rádio, dentro da viatura.
- Capitão! – tento uma abordagem.
Nada, ele me ignora. É a autoridade do pedaço.
Com sua pistola e uma tropa de comandados, armados com fuzis, ele manda e
desmanda na parada.
Ele encerra a comunicação pelo rádio e
sai da viatura.
- Capitão! – tento mais uma vez – Major,
coronel... – tento elevar seu ego, sem sucesso.
Ele não quer falar comigo. Ele quer
experimentar o êxtase do poder, ainda que fugaz. Ele quer apreciar uma
autoridade que o Estado lhe concedeu durante aquele “sábado qualquer” na
Mangueira.
O capitão mal sai da viatura e já parte
em direção a uma das ruas que ligam a Visconde de Niterói à comunidade. Ele sai
em disparada, na direção de três PMs, subalternos, que também se regozijam com
a autoridade que lhes foi concedida pelo Estado. Aquele é o momento de extravasarem
suas frustrações (capitão e subalternos). O salário de merda, os atrasos no pagamento,
o governador que foi vice e companheiro do ex-governador condenado por
corrupção (o qual ele é obrigado a servir), o risco desnecessário a que ele é
submetido cotidianamente. Tudo isso vem à mente quando são levados à Mangueira
naquele sábado qualquer, para “combater o tráfico”...
Hahaha... Combater o tráfico. Essa é a
expressão que a PM usa mas que não faz qualquer sentido. Combater o tráfico? Hahahahaha...
Não seria melhor dizer, trocar uns tirinhos numa favela mesmo sabendo que nada
vai mudar?
Voltando ao capitão, ele corre para
junto de seus subordinados, que apontam suas pistolas e fuzis para dentro da
favela, escondidos atrás de uma parede, apenas apontando suas cabeças para a
viela.
Eu acompanho tudo de perto. Os moradores
estão meio indecisos. Eles estão nos bares bebendo, mas sabem que alguma coisa
pode acontecer. De uma hora para outra, um tiro pode acabar com suas vidas. Um
comerciante fechou as portas de sua vendinha. Não quer levar problemas para dentro
da sua loja.
Os PMs subalternos gritam, alucinados
como o capitão, para alguém que caminha pela viela, mas que, de onde estou, não
consigo ver quem é.
- Vem pra cá, porra! Vai fugir não,
neguinho! – um dos PMs grita. Não me lembro se é um soldado, cabo ou sargento.
“Fudeu! O tiro vai comer aqui!”, eu
penso. Mas já passei por isso. Tiro não falta em ações policiais nas favelas do
Rio. Nos meus 15 anos como jornalista, já presenciei vários outros. Olho para
os carros, as paredes. Visualizo onde posso me proteger, caso minhas previsões
se confirmem.
A arma do PM está apontada para a viela.
Ele deve estar gritando com um bandido armado, no outro extremo da rua.
“Caralho! O que estou fazendo aqui?
Tenho um filho de cinco anos agora. Não posso mais brincar de correspondente de
guerra”, penso enquanto olho para o estressado PM, com sua pistola em riste.
O PM sai de trás do muro, com a pistola
apontada para alguém. “Fudeu! O couro vai comer agora. Tem um bandido com um
AR-15 pronto pra dar um tiro”...
Minha mente entra em parafuso, quando vejo
o alvo. É um casal. Um homem e uma mulher, cada um com uma criança (que não
devem ter mais do que três anos) no colo.
Esse é o "neguinho" com quem o PM vinha
travando o raivoso embate... É um homem desarmado, com uma criança no colo...
O capitão, a autoridade local, o rei, o
ditador, o Justiceiro-da-nova-geração, se ouriça como um pavão... Um pavão
covarde, isso é fato... E parte para cima do “neguinho”.
A criança no colo do cidadão se torna
invisível. O capitão, a autoridade real, agarra no braço do “neguinho”,
enquanto o PM subalterno aponta sua pistola para a “ameaça potencial” (um homem
com os dois braços ocupados em segurar uma criança).
O capitão começa a puxar o “neguinho”.
Puxa com força. Parece que seu objetivo é fazer o homem largar a criança e
fazê-la se estatelar no chão. “Em 15 anos, não vou precisar voltar aqui para
matar essa praga”, ele deve pensar.
Depois de muito puxar o braço do “perigoso”
suspeito, “armado” com uma criança de colo, alguém consegue pegar a criança.
Estou abismado o suficiente para não perceber quem ampara o bebê, se é a mãe ou
outra pessoa qualquer que está na rua e se prontifica a ajudar.
O capitão joga o homem no chão, sob o
protesto dos moradores, e torce seu braço. Depois o joga na caçamba de um
camburão. Sim, estamos no século 21, mas eles ainda existem e os presos vão no
bagageiro (mesmo as leis de trânsito proibindo qualquer pessoa de viajar num
porta-malas, por questão de segurança), afinal, presos não são “gente”, devem
pensar o capitão-autoridade e seus subordinados-autoridades.
Antes de ir embora, ainda sou abordado
por um policial do Choque, que acaba que chegar ao local e me pergunta: “O que
você está fazendo aqui?”. Antes que eu responda, ele percebe que sou jornalista
e fala: “Ah, você é da reportagem”. Uma senhora é abordada da mesma forma, como
se fosse crime transitar pela rua: “O que você tá fazendo aqui? Deixa de ser
fofoqueira!” (sim, esse foi o linguajar que a recém-chegada autoridade usa).
Resolvo ir embora. Já está na hora do
sepultamento do delegado. Antes de ir, vejo o capitão de novo. Afinal, ele é o
rei do pedaço! Com uma arma na cintura e três estrelas prateadas no ombro, ele é
a lei!
Ele olha para um menino. Sim, um menino,
que não deve ter 14 anos de idade. Ele está na rua, montado numa bicicleta,
olhando para os policiais. Apenas isso, olhando para os policiais. É o
suficiente para que o capitão, gritar, cheio de autoridade: “Tá olhando o quê?!
Quer ir pra delegacia também?!”.
O moleque responde, de forma enviesada,
que não está fazendo nada. O capitão ameaça partir pra cima. Quem saber torcer
seu braço, jogá-lo no chão, empurrá-lo para dentro de um bagageiro, como fez
com o homem que até minutos atrás cometeu o crime de descer da favela com uma
criança nos braços?
Não. Ele não faz isso. Desiste no meio.
Talvez ele já tenha extravasado suas frustrações no favelado minutos atrás. Ele
só quer mostrar pro moleque quem é que manda, não precisa mais sujar suas mãos.
É hora de ir embora. Chamo a motorista,
entramos no carro e deixamos a Mangueira. Apesar de ter me exposto ao risco, eu
estou tranquilo. Sei que dali vou para minha casa. Eu moro no asfalto. Nenhum
policial vai tirar meus filhos do meu braço, torcer meu braço e me jogar no
chão apenas porque estou andando nas ruas.
Pelo menos, por enquanto, não corro esse
risco. Mas quem sabe? Rezo para que meu filho não passe por isso, assim como espero
que a criança, arrancada das mãos de um adulto (que deve ser seu pai) antes de
completar seus quatro anos de idade, não passe por isso.
Rezo para que, quando chegar a hora
dessa mesma criança carregar seu filho no braço, não tenha que ser humilhada
novamente. Mas rezo ainda mais para que essa criança, que foi violentada pelo
Estado, não decida se voltar contra essa sociedade que é cúmplice dessa
violência, contra o Estado que a violentou, contra esses mesmos policiais que
um dia a violentaram.
Espero que um dia, essa criança não se
torne o criminoso, que assasinará um policial, como o delegado para cujo
sepultamento me desloquei depois de deixar a Mangueira.
quinta-feira, 19 de outubro de 2017
Tráfico de armas: O mito do fechamento das fronteiras
Nesta quinta-feira (19), acompanhei uma reportagem "exclusiva" da TV Globo que pretendia mostrar as "rotas" de armas que abastecem a criminalidade no Rio de Janeiro. Com grande alarde, a TV Globo mostrava que as armas entram no Brasil por meio do Paraná e Mato Grosso do Sul.
Bem, sobre a matéria, só tenho a dizer que não há nada de novo nela. Fiz uma semelhante, dez anos atrás e antes de mim vários já tinham feito. Paraná e Mato Grosso do Sul, que fazem fronteira com Paraguai e Bolívia (caso do MS), sempre foram os principais pontos de entrada de drogas e de armas estrangeiras no país.
Mas a reportagem foi apenas um gancho para levantar uma questão crucial na segurança pública. Os mitos perpetrados pela polícia e pela imprensa, que são repetidos à exaustão e acabam virando verdades absolutas (ainda que não se sustentem por fatos).
Um dos mitos propagados pela imprensa é que é necessário fechar as fronteiras do país (principalmente com as forças armadas. Sempre elas!), porque as drogas e as armas vêm do exterior. Logo, se as forças armadas conseguirem fazer um bom trabalho nas fronteiras brasileiras, o problema estará resolvido: as facções criminosas brasileiras não terão nem drogas nem armas.
A sustentação desse mito encontra alguns problemas na vida real:
1) Em primeiro lugar, todos sabemos que a maioria das armas usadas pelos criminosos são brasileiras. Um levantamento do Instituto Sou da Paz mostrou que 60% das armas apreendidas pela polícia fluminense são fabricadas no Brasil. Logo, elas não precisam passar por fronteira nenhuma. Elas são feitas aqui, vendidas aqui e passadas para a criminalidade aqui. Como isso acontece? De várias formas: através do extravio de arsenais oficiais e de firmas de segurança; da venda de armas usadas por policiais, colecionadores, atiradores etc.; através do furto de armas legais; através do comércio de armas produzidas muitos anos atrás, quando não havia muito controle sobre esse comércio; e por aí vai. A proporção de munição nacional é praticamente a mesma.
2) Os outros 40% das armas não necessariamente são importadas diretamente pelos criminosos. Muitas delas entram legalmente no Brasil e são, através dos mesmos caminhos descritos acima, desviadas posteriormente para os criminosos.
3) E os fuzis? Os fuzis representam menos de 5% das armas apreendidas no Rio de Janeiro, um dos estados onde mais se apreendem fuzis, segundo os últimos dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública. A maioria deles é, sim, estrangeira (apesar de alguns apreendidos serem da Imbel). E, sim, a maioria deles é importada diretamente pelos criminosos, até porque sua comercialização legal é muito restrita.
4) Se fecharmos as fronteiras, os fuzis deixarão de entrar? Bem, quanto a isso, terei que dividir a resposta em alguns pontos:
4.a) Sinto desapontá-lo, mas ainda que você coloque 100 mil soldados patrulhando as fronteiras do país, será impossível impedir a entrada de um objeto que mede menos de um metro e que pesa menos de 5 kg. Patrulhar fronteiras com forças armadas é custoso e completamente inócuo.
4.b) As autoridades usam justamente o argumento de que 15 mil km de fronteiras são impossíveis de patrulhar. Concordo e discordo. Por mais que seja possível traficar drogas e armas por meio da floresta etc, os traficantes sempre vão preferir as cidades, porque a logística é mais fácil. Mas mesmo as cidades é difícil de patrulhar. Várias cidades brasileiras simplesmente se aglomeram com as estrangeiras. Em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, por exemplo, basta atravessar a rua para se chegar a Ponta Porã, no Brasil. Então também é impossível fechar essas fronteiras, a não ser que se ergam barreiras e se limite o tráfico de carros e pessoas entre esses países. Fazer isso sem inteligência é como... deixa me ver... é como... tentar encontrar um fuzil em 15 mil km de fronteiras (ou em pelo menos ruas de 40 cidades).
4.b) A forma mais eficaz de combater o tráfico internacional por meio de fronteira seca, é monitorar os principais fornecedores nos países vizinhos e os compradores brasileiros e já interceptar os carregamentos
4.a) Nem todos fuzis entram pelos 15 mil quilômetros de fronteira seca. Muitos entram por contêineres através dos portos e também através de carga aérea. Tem armas que entram até pelos correios.
4.b) Logo, mesmo que se feche a fronteira seca, as armas continuarão entrando por meio dos portos e aeroportos. Imagine a quantidade de produtos estrangeiros que entram num país com 200 milhões de habitantes diariamente. Agora imagina interceptar produtos ilegais (muitas vezes ocultos dentro de produtos "legais") nessa infinitude de carregamentos internacionais. Interceptá-las sem inteligência é o mesmo que tentar fazer isso na fronteira seca. Agora, some-se a isso, a corrupção sistêmica que atinge os funcionários da Receita Federal e da Polícia Federal nesses pontos de entrada.
Enfim, o problema é um pouco mais complexo do que simplesmente botar Exército para fazer um pente-fino na fronteira.
Bem, sobre a matéria, só tenho a dizer que não há nada de novo nela. Fiz uma semelhante, dez anos atrás e antes de mim vários já tinham feito. Paraná e Mato Grosso do Sul, que fazem fronteira com Paraguai e Bolívia (caso do MS), sempre foram os principais pontos de entrada de drogas e de armas estrangeiras no país.
Mas a reportagem foi apenas um gancho para levantar uma questão crucial na segurança pública. Os mitos perpetrados pela polícia e pela imprensa, que são repetidos à exaustão e acabam virando verdades absolutas (ainda que não se sustentem por fatos).
Um dos mitos propagados pela imprensa é que é necessário fechar as fronteiras do país (principalmente com as forças armadas. Sempre elas!), porque as drogas e as armas vêm do exterior. Logo, se as forças armadas conseguirem fazer um bom trabalho nas fronteiras brasileiras, o problema estará resolvido: as facções criminosas brasileiras não terão nem drogas nem armas.
A sustentação desse mito encontra alguns problemas na vida real:
1) Em primeiro lugar, todos sabemos que a maioria das armas usadas pelos criminosos são brasileiras. Um levantamento do Instituto Sou da Paz mostrou que 60% das armas apreendidas pela polícia fluminense são fabricadas no Brasil. Logo, elas não precisam passar por fronteira nenhuma. Elas são feitas aqui, vendidas aqui e passadas para a criminalidade aqui. Como isso acontece? De várias formas: através do extravio de arsenais oficiais e de firmas de segurança; da venda de armas usadas por policiais, colecionadores, atiradores etc.; através do furto de armas legais; através do comércio de armas produzidas muitos anos atrás, quando não havia muito controle sobre esse comércio; e por aí vai. A proporção de munição nacional é praticamente a mesma.
2) Os outros 40% das armas não necessariamente são importadas diretamente pelos criminosos. Muitas delas entram legalmente no Brasil e são, através dos mesmos caminhos descritos acima, desviadas posteriormente para os criminosos.
3) E os fuzis? Os fuzis representam menos de 5% das armas apreendidas no Rio de Janeiro, um dos estados onde mais se apreendem fuzis, segundo os últimos dados divulgados pelo Instituto de Segurança Pública. A maioria deles é, sim, estrangeira (apesar de alguns apreendidos serem da Imbel). E, sim, a maioria deles é importada diretamente pelos criminosos, até porque sua comercialização legal é muito restrita.
4) Se fecharmos as fronteiras, os fuzis deixarão de entrar? Bem, quanto a isso, terei que dividir a resposta em alguns pontos:
4.a) Sinto desapontá-lo, mas ainda que você coloque 100 mil soldados patrulhando as fronteiras do país, será impossível impedir a entrada de um objeto que mede menos de um metro e que pesa menos de 5 kg. Patrulhar fronteiras com forças armadas é custoso e completamente inócuo.
4.b) As autoridades usam justamente o argumento de que 15 mil km de fronteiras são impossíveis de patrulhar. Concordo e discordo. Por mais que seja possível traficar drogas e armas por meio da floresta etc, os traficantes sempre vão preferir as cidades, porque a logística é mais fácil. Mas mesmo as cidades é difícil de patrulhar. Várias cidades brasileiras simplesmente se aglomeram com as estrangeiras. Em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, por exemplo, basta atravessar a rua para se chegar a Ponta Porã, no Brasil. Então também é impossível fechar essas fronteiras, a não ser que se ergam barreiras e se limite o tráfico de carros e pessoas entre esses países. Fazer isso sem inteligência é como... deixa me ver... é como... tentar encontrar um fuzil em 15 mil km de fronteiras (ou em pelo menos ruas de 40 cidades).
4.b) A forma mais eficaz de combater o tráfico internacional por meio de fronteira seca, é monitorar os principais fornecedores nos países vizinhos e os compradores brasileiros e já interceptar os carregamentos
4.a) Nem todos fuzis entram pelos 15 mil quilômetros de fronteira seca. Muitos entram por contêineres através dos portos e também através de carga aérea. Tem armas que entram até pelos correios.
4.b) Logo, mesmo que se feche a fronteira seca, as armas continuarão entrando por meio dos portos e aeroportos. Imagine a quantidade de produtos estrangeiros que entram num país com 200 milhões de habitantes diariamente. Agora imagina interceptar produtos ilegais (muitas vezes ocultos dentro de produtos "legais") nessa infinitude de carregamentos internacionais. Interceptá-las sem inteligência é o mesmo que tentar fazer isso na fronteira seca. Agora, some-se a isso, a corrupção sistêmica que atinge os funcionários da Receita Federal e da Polícia Federal nesses pontos de entrada.
Enfim, o problema é um pouco mais complexo do que simplesmente botar Exército para fazer um pente-fino na fronteira.
segunda-feira, 2 de outubro de 2017
A legalização das drogas e a redução da criminalidade
Logo que comecei esse blog em 2010, eu me posicionei abertamente pela legalização do uso das drogas (de todas elas, sem exceção) e a regulamentação de sua venda. Naquela ocasião, defendi que a medida era essencial para se reduzir a violência atrelada ao tráfico de drogas no país.
Ontem eu li no Jornal O Globo, uma enquete com oito especialistas que responderam a seguinte pergunta: "A legalização das drogas diminuiria a violência no Rio?".
Quatro deles respondiam que sim e davam suas razões e quatro respondiam que não e explicavam seus motivos. A iniciativa do Globo de levantar a questão é de suma importância para se fomentar um debate acerca de alternativas à guerra às drogas.
Eu continuo acreditando em meu posicionamento de 2010 e defendendo a legalização de todas as drogas, acreditando que não cabe ao Estado regular o que cada cidadão adulto deve consumir, desde que isso não afete o coletivo da sociedade.
E também continuo acreditando que haverá, sim, uma redução da violência.
Hoje, no entanto, tenho muitas dúvidas sobre a amplitude dessa redução e sobre o impacto que essa medida teria na dinâmica criminal do Rio de Janeiro, que envolve o controle territorial armado ilegal. Acredito que provavelmente o controle territorial armado continuaria, já que as quadrilhas hoje envolvidas com o tráfico arrumariam outra forma de exploração ilegal do território (funcionando como as milícias).
Vamos analisar a situação ponto a ponto.
1) A legalização das drogas acabaria com o tráfico?
Provavelmente, não. Mas enfraqueceria de forma absurda o poder das facções criminosas. A regulamentação de setores econômicos não é capaz de acabar com a informalidade. Provavelmente, a droga ilegal (não regulamentada) continuaria sendo vendida mais barata e com uma qualidade inferior. Mas esse comércio informal representaria apenas uma parte pequena do comércio de drogas e não movimentaria mais milhões de reais. Com menos dinheiro nas mãos, os criminosos teriam menos poder, menos armas e menos capacidade de corromper agentes do Estado.
2) A legalização reduziria a violência relacionada ao tráfico?
Certamente. O volume de drogas, dinheiro e armas seria bem menor. As disputas tenderiam a ser menos sangrentas. As brigas entre facções seriam menos atrativas e as intervenções policiais seriam menos drásticas e menos violentas.
3) A legalização reduziria a violência como um todo no Rio de Janeiro?
Sim, mas apenas de forma moderada. Muitos dos homicídios no Rio de Janeiro não são sequer relacionados a grupos criminosos organizados ou semiorganizados, mas sim a ações isoladas, como brigas de trânsito, de vizinhos, violência doméstica, desavenças etc. E mesmo aquelas mortes relacionadas ao crime organizado/semiorganizado não podem ser atribuídas exclusivamente ao tráfico de drogas, mas também a milícias, jogo do bicho, esquadrões da morte etc. Então, seria preciso primeiro saber quantas mortes são causadas pelo tráfico. Certamente essas mortes específicas seriam drasticamente reduzidas.
4) A legalização acabaria com o controle territorial armado das favelas do Rio de Janeiro?
Provavelmente não. Depois de mais de 40 anos de controle desses territórios, os criminosos dificilmente abririam mão dessa prática e abandonariam a dominação dessas comunidades. É uma situação muito antiga, então esse sistema informal de liderança, submissão e lealdades está muito entranhado nessas comunidades. Os bandidos sentiriam um impacto imediato, mas em um prazo relativamente curto, eles usariam suas armas para se articular em um novo esquema criminoso, mais próximo de um sistema mafioso. As milícias do Rio de Janeiro já ensinaram o caminho das pedras: venda de proteção, extorsão, controle do transporte, cobrança de taxas de comércio, extorsão de uma forma geral, venda de TV a cabo clandestina, venda de botijões de gás etc. Em algumas comunidades cuja atividade ilegal principal é a venda de drogas, algumas dessas atividades criminosas já começaram a ser praticadas. Além do mais, eles continuariam usando seus territórios para cometer crimes como roubo de carga, roubo de banco, assalto de rua, roubo a lojas e a casas.
Enfim, a legalização das drogas é importante mas não é uma solução mágica. No dia em que o Brasil for maduro o suficiente para legalizar e regulamentar a venda de substâncias alucinógenas, as autoridades precisam se preparar para enfrentar não só o comércio ilegal desses produtos (que provavelmente continuará existindo), mas principalmente para a readequação das quadrilhas criminosas para uma nova dinâmica.
Ontem eu li no Jornal O Globo, uma enquete com oito especialistas que responderam a seguinte pergunta: "A legalização das drogas diminuiria a violência no Rio?".
Quatro deles respondiam que sim e davam suas razões e quatro respondiam que não e explicavam seus motivos. A iniciativa do Globo de levantar a questão é de suma importância para se fomentar um debate acerca de alternativas à guerra às drogas.
Eu continuo acreditando em meu posicionamento de 2010 e defendendo a legalização de todas as drogas, acreditando que não cabe ao Estado regular o que cada cidadão adulto deve consumir, desde que isso não afete o coletivo da sociedade.
E também continuo acreditando que haverá, sim, uma redução da violência.
Hoje, no entanto, tenho muitas dúvidas sobre a amplitude dessa redução e sobre o impacto que essa medida teria na dinâmica criminal do Rio de Janeiro, que envolve o controle territorial armado ilegal. Acredito que provavelmente o controle territorial armado continuaria, já que as quadrilhas hoje envolvidas com o tráfico arrumariam outra forma de exploração ilegal do território (funcionando como as milícias).
Vamos analisar a situação ponto a ponto.
1) A legalização das drogas acabaria com o tráfico?
Provavelmente, não. Mas enfraqueceria de forma absurda o poder das facções criminosas. A regulamentação de setores econômicos não é capaz de acabar com a informalidade. Provavelmente, a droga ilegal (não regulamentada) continuaria sendo vendida mais barata e com uma qualidade inferior. Mas esse comércio informal representaria apenas uma parte pequena do comércio de drogas e não movimentaria mais milhões de reais. Com menos dinheiro nas mãos, os criminosos teriam menos poder, menos armas e menos capacidade de corromper agentes do Estado.
2) A legalização reduziria a violência relacionada ao tráfico?
Certamente. O volume de drogas, dinheiro e armas seria bem menor. As disputas tenderiam a ser menos sangrentas. As brigas entre facções seriam menos atrativas e as intervenções policiais seriam menos drásticas e menos violentas.
3) A legalização reduziria a violência como um todo no Rio de Janeiro?
Sim, mas apenas de forma moderada. Muitos dos homicídios no Rio de Janeiro não são sequer relacionados a grupos criminosos organizados ou semiorganizados, mas sim a ações isoladas, como brigas de trânsito, de vizinhos, violência doméstica, desavenças etc. E mesmo aquelas mortes relacionadas ao crime organizado/semiorganizado não podem ser atribuídas exclusivamente ao tráfico de drogas, mas também a milícias, jogo do bicho, esquadrões da morte etc. Então, seria preciso primeiro saber quantas mortes são causadas pelo tráfico. Certamente essas mortes específicas seriam drasticamente reduzidas.
4) A legalização acabaria com o controle territorial armado das favelas do Rio de Janeiro?
Provavelmente não. Depois de mais de 40 anos de controle desses territórios, os criminosos dificilmente abririam mão dessa prática e abandonariam a dominação dessas comunidades. É uma situação muito antiga, então esse sistema informal de liderança, submissão e lealdades está muito entranhado nessas comunidades. Os bandidos sentiriam um impacto imediato, mas em um prazo relativamente curto, eles usariam suas armas para se articular em um novo esquema criminoso, mais próximo de um sistema mafioso. As milícias do Rio de Janeiro já ensinaram o caminho das pedras: venda de proteção, extorsão, controle do transporte, cobrança de taxas de comércio, extorsão de uma forma geral, venda de TV a cabo clandestina, venda de botijões de gás etc. Em algumas comunidades cuja atividade ilegal principal é a venda de drogas, algumas dessas atividades criminosas já começaram a ser praticadas. Além do mais, eles continuariam usando seus territórios para cometer crimes como roubo de carga, roubo de banco, assalto de rua, roubo a lojas e a casas.
Enfim, a legalização das drogas é importante mas não é uma solução mágica. No dia em que o Brasil for maduro o suficiente para legalizar e regulamentar a venda de substâncias alucinógenas, as autoridades precisam se preparar para enfrentar não só o comércio ilegal desses produtos (que provavelmente continuará existindo), mas principalmente para a readequação das quadrilhas criminosas para uma nova dinâmica.
sábado, 30 de setembro de 2017
O Exército sai da Rocinha: o dia seguinte
Então as forças armadas saíram da Rocinha na manhã de ontem (29). E você, cidadão que tem acompanhado o noticiário cotidiano, o que acha disso?
A imprensa noticia que não há tiroteios na Rocinha há mais de 24 horas. Seria isso prova de que a atuação do Exército na comunidade deu certo? Será que os militares conseguiram inibir a ação de criminosos e impediram mais banho de sangue na favela?
Se formos ouvir o que o ministro da Defesa, o governo do Rio e a imprensa tem a dizer, sim, podemos acreditar que o Exército foi uma solução de curto prazo para a comunidade.
A imprensa, as autoridades e a população adoram "soluções" rápidas, simples e mágicas para problemas duradouros, complexos e reais (alguém aí se lembra de uma solução mágica chamada UPP?). Então, não é de se estranhar que achemos que o problema foi, por hora, resolvido.
Mas se formos analisar friamente essa semana em que o Exército atuou na Rocinha, o que temos de concreto? Nada. A não ser o custo imenso que uma operação desse porte tem para os cofres públicos.
Sim. É fato que você encher uma área com agentes do Estado armado geram, em curto prazo, uma inibição da atuação de criminosos. Isso é fato notável.
Quem acompanha a segurança pública nos últimos 40 anos sabe como funcionam ocupações policiais/militares: há um tiroteio quando os agentes entram, depois das primeiras horas fica tudo tranquilo e nos dias seguintes, praticamente nada acontece a não ser algumas apreensões de armas e drogas, e as prisões de alguns borra-botas que são destacados pelo comando da quadrilha para permanecer no local e impedir a invasão de outros bandidos.
E, é claro, que não há ocupação que consiga integralmente controlar todos os pontos de uma favela grande como a Rocinha. Então, eventualmente também há alguns confrontos esporádicos entre os agentes do Estado e os criminosos armados.
Bem, isso acontece em qualquer favela do Rio de Janeiro desde a década de 80 (e até antes disso). E não foi diferente do que aconteceu na Rocinha (apenas poucas horas antes do Exército sair, policiais trocaram tiros com seis homens armados, só para dar um exemplo de que confrontos também ocorreram durante a permanência do Exército).
O Exército saiu, a polícia vai sair de fininho devagar e a UPP (que ocupa a Rocinha há cinco anos) continuará seu trabalho de enxugar gelo para manter o sonho das Unidade de Polícia Pacificadoras de pé (quando todos sabem que isso já foi sepultado).
A quadrilha que tem o controle atual do território continuará com ele. O mais provável é que os criminosos rivais tentem tomar as lucrativas bocas-de-fumo da Rocinha. Sim. Guerras como essa se estendem por semanas, ou até mesmo por meses.
Mas existe a possibilidade dos próprios criminosos entrarem num acerto, com ou sem a intervenção das autoridades de segurança. Ou o acerto pode ser determinado pelos policiais das delegacias e batalhões que regem essas dinâmicas criminais. Se o Batalhão X disser que a guerra acabou e que a facção Y vai dominar aquela favela, a guerra provavelmente vai acabar
E se não acabar por bem, acabará por mal, porque a polícia poderá tornar a vida da facção inimiga um inferno, fazendo ações policiais rotineiras que trarão prejuízo para os negócios.
E, então, tudo voltará à mais perfeita ordem, com as gangues ganhando dinheiro com a droga e os policiais corruptos lucrando com o negócio ilícito.
E nada mudará. Pode chamar o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e até os Navy Seals. No atual arranjo das coisas. Nada mudará.
Daqui a 20 anos, estaremos exigindo a entrada do Exército na Rocinha (ou em outra favela), dizendo que a situação ficou insustentável. E daqui a 20 anos, ficaremos satisfeitos apenas porque os tiroteios pararam por 24 horas.
A imprensa noticia que não há tiroteios na Rocinha há mais de 24 horas. Seria isso prova de que a atuação do Exército na comunidade deu certo? Será que os militares conseguiram inibir a ação de criminosos e impediram mais banho de sangue na favela?
Se formos ouvir o que o ministro da Defesa, o governo do Rio e a imprensa tem a dizer, sim, podemos acreditar que o Exército foi uma solução de curto prazo para a comunidade.
A imprensa, as autoridades e a população adoram "soluções" rápidas, simples e mágicas para problemas duradouros, complexos e reais (alguém aí se lembra de uma solução mágica chamada UPP?). Então, não é de se estranhar que achemos que o problema foi, por hora, resolvido.
Mas se formos analisar friamente essa semana em que o Exército atuou na Rocinha, o que temos de concreto? Nada. A não ser o custo imenso que uma operação desse porte tem para os cofres públicos.
Sim. É fato que você encher uma área com agentes do Estado armado geram, em curto prazo, uma inibição da atuação de criminosos. Isso é fato notável.
Quem acompanha a segurança pública nos últimos 40 anos sabe como funcionam ocupações policiais/militares: há um tiroteio quando os agentes entram, depois das primeiras horas fica tudo tranquilo e nos dias seguintes, praticamente nada acontece a não ser algumas apreensões de armas e drogas, e as prisões de alguns borra-botas que são destacados pelo comando da quadrilha para permanecer no local e impedir a invasão de outros bandidos.
E, é claro, que não há ocupação que consiga integralmente controlar todos os pontos de uma favela grande como a Rocinha. Então, eventualmente também há alguns confrontos esporádicos entre os agentes do Estado e os criminosos armados.
Bem, isso acontece em qualquer favela do Rio de Janeiro desde a década de 80 (e até antes disso). E não foi diferente do que aconteceu na Rocinha (apenas poucas horas antes do Exército sair, policiais trocaram tiros com seis homens armados, só para dar um exemplo de que confrontos também ocorreram durante a permanência do Exército).
O Exército saiu, a polícia vai sair de fininho devagar e a UPP (que ocupa a Rocinha há cinco anos) continuará seu trabalho de enxugar gelo para manter o sonho das Unidade de Polícia Pacificadoras de pé (quando todos sabem que isso já foi sepultado).
A quadrilha que tem o controle atual do território continuará com ele. O mais provável é que os criminosos rivais tentem tomar as lucrativas bocas-de-fumo da Rocinha. Sim. Guerras como essa se estendem por semanas, ou até mesmo por meses.
Mas existe a possibilidade dos próprios criminosos entrarem num acerto, com ou sem a intervenção das autoridades de segurança. Ou o acerto pode ser determinado pelos policiais das delegacias e batalhões que regem essas dinâmicas criminais. Se o Batalhão X disser que a guerra acabou e que a facção Y vai dominar aquela favela, a guerra provavelmente vai acabar
E se não acabar por bem, acabará por mal, porque a polícia poderá tornar a vida da facção inimiga um inferno, fazendo ações policiais rotineiras que trarão prejuízo para os negócios.
E, então, tudo voltará à mais perfeita ordem, com as gangues ganhando dinheiro com a droga e os policiais corruptos lucrando com o negócio ilícito.
E nada mudará. Pode chamar o Exército, a Marinha, a Aeronáutica e até os Navy Seals. No atual arranjo das coisas. Nada mudará.
Daqui a 20 anos, estaremos exigindo a entrada do Exército na Rocinha (ou em outra favela), dizendo que a situação ficou insustentável. E daqui a 20 anos, ficaremos satisfeitos apenas porque os tiroteios pararam por 24 horas.
domingo, 24 de setembro de 2017
Polícia veio para ficar na Rocinha, diz governador do Rio...em 2011
Quem aí não se lembra dos policiais do Bope estendo a bandeira brasileira no alto das favelas depois de cada ocupação antes da entrada das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nas comunidades cariocas?
Quem aí se esqueceu de repórteres tendo orgasmos com cada blindado entrando em preparação para uma nova "pacificação"?
E das autoridades se gabando que tinham acabado com o jugo do tráfico e trazido paz duradoura para os moradores das comunidades-alvo das ocupações policiais.
Toda vez que vejo a imprensa exigindo a ocupação de favelas, toda vez que eu vejo o espetáculo das operações policiais (e principalmente das ações militares), toda vez que eu ouço uma autoridade prometendo a permanência da polícia nessas comunidades, eu me lembro dessa época.
Foi uma época de pseudo-sonhos, que se estendeu de 2008 a mais ou menos 2012. Um período em que a imprensa e a sociedade acreditaram cegamente na utopia de um governo que prometeu acabar com o controle territorial armado do Rio de Janeiro.
Mas na verdade eu não lembro apenas dessa época, eu me lembro das operações pré-Jogos Panamericanos 2007, eu me lembro das ações dos governos Rosinha, Benedita, Garotinho, Marcelo Alencar (eu não lembro nada de Moreira Franco, porque eu era muito criança)...
O modelo entra, ocupa, ilude a população e sai da favela não é novo. Mas é surpreendente como a imprensa, a sociedade e os governos insistem nesse modelo fracassado, seja de operações com duração de poucas horas seja com pseudo-ocupações de vários meses (ou anos no caso das UPPs).
Toda vez que surge uma "onda de violência", uma imprensa torpe exige uma ação contundente da polícia. E, se a polícia não é espetacular ou "contundente" (leia-se: não mata, prende e apreende o suficiente), a solução é chamar o Exército.
Pouco importa o resultado prático disso. Pouco importa se os últimos 30 anos demonstraram que ocupações duradouras ou escaramuças esporádicas de forças policiais/armadas não tiveram qualquer impacto no modelo de criminalidade armada no Rio de Janeiro.
Foi aliás, esse paradigma de ocupação territorial como resposta para ocupação territorial que deu origem à mais nefasta modalidade criminosa do Rio de Janeiro: as milícias. Policiais e ex-policiais crentes nesse modelo decidiram acabar com o tráfico em suas comunidades ocupando eles mesmos as favelas.
Enquanto acreditarmos que a ocupação territorial é a solução para nossos problemas (e sabemos pela história da humanidade que ocupações por estrangeiros/estranhos não funcionam), não vamos atacar os principais problemas que alimentam o controle territorial armado ilegal no Rio.
E que problemas são esses? A corrupção policial, a falta de recursos investigativos, a falta de atenção aos esquemas de atacado da droga, os olhos fechados para os fornecedores de armas (e esqueça um pouco os esquemas transnacionais de tráfico de armas, estou falando aqui também de policiais, colecionadores de armas, firmas de segurança, cidadãos de bem que têm porte de arma e as desviam para os criminosos), a legislação linha-dura contra a venda e consumo de drogas, apenas para citar alguns.
Em 2011, ouvimos o ex-governador (e agora presidiário) Sérgio Cabral dizer que a polícia chegou à Rocinha para ficar. Seis anos depois, ouvimos seu sucessor (e na época vice-governador) Luiz Fernando Pezão repetir o mesmo mantra.
Quem aí duvida que daqui a seis anos ouviremos o próximo governador falar a mesma coisa?
Quem aí se esqueceu de repórteres tendo orgasmos com cada blindado entrando em preparação para uma nova "pacificação"?
E das autoridades se gabando que tinham acabado com o jugo do tráfico e trazido paz duradoura para os moradores das comunidades-alvo das ocupações policiais.
Toda vez que vejo a imprensa exigindo a ocupação de favelas, toda vez que eu vejo o espetáculo das operações policiais (e principalmente das ações militares), toda vez que eu ouço uma autoridade prometendo a permanência da polícia nessas comunidades, eu me lembro dessa época.
Foi uma época de pseudo-sonhos, que se estendeu de 2008 a mais ou menos 2012. Um período em que a imprensa e a sociedade acreditaram cegamente na utopia de um governo que prometeu acabar com o controle territorial armado do Rio de Janeiro.
Mas na verdade eu não lembro apenas dessa época, eu me lembro das operações pré-Jogos Panamericanos 2007, eu me lembro das ações dos governos Rosinha, Benedita, Garotinho, Marcelo Alencar (eu não lembro nada de Moreira Franco, porque eu era muito criança)...
O modelo entra, ocupa, ilude a população e sai da favela não é novo. Mas é surpreendente como a imprensa, a sociedade e os governos insistem nesse modelo fracassado, seja de operações com duração de poucas horas seja com pseudo-ocupações de vários meses (ou anos no caso das UPPs).
Toda vez que surge uma "onda de violência", uma imprensa torpe exige uma ação contundente da polícia. E, se a polícia não é espetacular ou "contundente" (leia-se: não mata, prende e apreende o suficiente), a solução é chamar o Exército.
Pouco importa o resultado prático disso. Pouco importa se os últimos 30 anos demonstraram que ocupações duradouras ou escaramuças esporádicas de forças policiais/armadas não tiveram qualquer impacto no modelo de criminalidade armada no Rio de Janeiro.
Foi aliás, esse paradigma de ocupação territorial como resposta para ocupação territorial que deu origem à mais nefasta modalidade criminosa do Rio de Janeiro: as milícias. Policiais e ex-policiais crentes nesse modelo decidiram acabar com o tráfico em suas comunidades ocupando eles mesmos as favelas.
Enquanto acreditarmos que a ocupação territorial é a solução para nossos problemas (e sabemos pela história da humanidade que ocupações por estrangeiros/estranhos não funcionam), não vamos atacar os principais problemas que alimentam o controle territorial armado ilegal no Rio.
E que problemas são esses? A corrupção policial, a falta de recursos investigativos, a falta de atenção aos esquemas de atacado da droga, os olhos fechados para os fornecedores de armas (e esqueça um pouco os esquemas transnacionais de tráfico de armas, estou falando aqui também de policiais, colecionadores de armas, firmas de segurança, cidadãos de bem que têm porte de arma e as desviam para os criminosos), a legislação linha-dura contra a venda e consumo de drogas, apenas para citar alguns.
Em 2011, ouvimos o ex-governador (e agora presidiário) Sérgio Cabral dizer que a polícia chegou à Rocinha para ficar. Seis anos depois, ouvimos seu sucessor (e na época vice-governador) Luiz Fernando Pezão repetir o mesmo mantra.
Quem aí duvida que daqui a seis anos ouviremos o próximo governador falar a mesma coisa?
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
Exército na Rocinha: o show não pode parar
O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, pediu hoje (22) para que o Exército brasileiro seja usado para ocupar a comunidade da Rocinha, na zona sul da capital fluminense. A medida tem sido pedida à exaustão pela imprensa fluminense, como se a força armada fosse a solução mágica para um problema tão complexo quanto a insegurança pública no Rio.
O Exército, na verdade, já foi usado dezenas de vezes nos últimos 20 anos, sem muitos resultados práticos. Em geral, a força armada desfila com seus blindados, tanques de guerra e jovens recrutas com pouco ou nenhum preparo para a guerra (e com menos preparo ainda para atuar na segurança pública), mas não efetua prisões ou evita ações criminosas que ocorram a poucos metros de si.
Enfim, os militares servem muito ao espetáculo midiático, que adora ver carros de guerra circulando pelas ruas da cidade e militares camuflados posando com seus fuzis. Mas servem pouco à segurança pública.
O Exército sabe que não tem preparo para atuar como força de polícia e sabe que não fará qualquer diferença nesse caos que é a insegurança pública do Rio de Janeiro. Mas, por algum motivo, se deixa usar como peão nesse simulacro de "Jogos de Guerra".
Vejamos o que disse o comandante da 1a Divisão do Exército, general Mauro Sinott, acerca do uso do 1o Batalhão de Polícia do Exército nas operações da Rocinha.
O Exército, na verdade, já foi usado dezenas de vezes nos últimos 20 anos, sem muitos resultados práticos. Em geral, a força armada desfila com seus blindados, tanques de guerra e jovens recrutas com pouco ou nenhum preparo para a guerra (e com menos preparo ainda para atuar na segurança pública), mas não efetua prisões ou evita ações criminosas que ocorram a poucos metros de si.
Enfim, os militares servem muito ao espetáculo midiático, que adora ver carros de guerra circulando pelas ruas da cidade e militares camuflados posando com seus fuzis. Mas servem pouco à segurança pública.
O Exército sabe que não tem preparo para atuar como força de polícia e sabe que não fará qualquer diferença nesse caos que é a insegurança pública do Rio de Janeiro. Mas, por algum motivo, se deixa usar como peão nesse simulacro de "Jogos de Guerra".
Vejamos o que disse o comandante da 1a Divisão do Exército, general Mauro Sinott, acerca do uso do 1o Batalhão de Polícia do Exército nas operações da Rocinha.
"Vamos fazer um cerco à comunidade, ajudar no controle de trânsito e no controle do tráfego aéreo, a fim de liberar os
contingentes de polícia para ações mais
específicas de polícia".
Ajudar no controle de trânsito? Eu entendi bem? Vamos usar homens cuja função constitucional é garantir a defesa do país contra ataques de outros países para "controlar o trânsito". Bem, general, para isso já existe a CET-Rio.
Controlar o tráfego aéreo? Eu entendi bem de novo? Me desculpa, general, mas os bandidos não vão atacar ninguém usando helicópteros ou aviões de combate.
Liberar a polícia para fazer ações de polícia? Legal. E se o trabalho de polícia será feito pela polícia (o que inclui o cerco policial), o que sobra exatamente para o Exército fazer, além de aparecer nas câmeras de TV e apaziguar os falcões da imprensa?
A resposta é...
...nada.
É isso que o Exército fará na Rocinha. Nada.
Os militares não ajudarão a polícia. Eles não conhecem o terreno. Não estão autorizados a cumprir mandados de prisão. Não vão se envolver nos confrontos (os comandantes militares correm desse tipo de problema).
Eles serão, na verdade, uma preocupação a mais para a polícia. É mais uma cadeia de comando para dificultar as ações. Eles podem ser alvos de criminosos. E eles podem cometer violações de direitos constitucionais (já que eles não estão preparados para esse tipo de ação), algo que ocorreu em muitas das ações envolvendo as forças armadas em favelas.
O risco maior, no entanto, é a cortina de fumaça continuar na segurança pública. E os problemas reais serem, cada vez mais, jogados para debaixo do tapete, enquanto os verde-olivas posam para fotos e câmeras de TV.
Lapa, quinta-feira: Mais uma vida perdida no bangue-bangue do Rio de Janeiro
E mais uma pessoa
morreu no Rio de Janeiro, vítima da mentalidade bangue-bangue
que afeta a nossa sociedade. Jonathan Vitorino Ferraz estava numa
calçada da Lapa, quando, depois de uma tentativa de assalto,
começou o tiroteio que tirou sua vida, aos 24 anos.
Não, Jonathan
não era a vítima do assalto. Jonathan não era o
bandido. E Jonathan sequer foi morto por causa do assalto.
Quem matou Jonathan
foram aqueles que deveriam proteger sua vida: policiais.
Segundo a polícia
e testemunhas, o fato foi o seguinte: criminosos em uma moto pararam
em um posto de gasolina na Lapa para roubar pessoas. Um deles, pelo
menos, estava armado. Ele roubou um frentista e se dirigiu até
um carro para assaltar dois policiais civis à paisana.
Ao perceber que o homem
armado se dirigia até eles, os policiais sacaram suas armas. O
bandido viu as armas, largou a sua e correu para a moto, para fugir
dali.
Com o criminoso já
tendo desistido do assalto e já tendo largado a arma, os
policiais então dispararam pelo menos dez vezes para, de forma
infrutífera, evitar sua fuga. Você não leu
errado: dez vezes.
Bem, quem sabe como
funciona uma arma (e acho que isso inclui todos os brasileiros a
partir dos dois anos de idade), sabe que, quando a pessoa aperta o
gatilho, a bala sai da arma e vai parar em algum lugar. Imagino que
um policial civil saiba disso também.
Ora, se tudo der certo,
a bala vai atingir o alvo desejado ou morrer num muro. Mas existe a
possibilidade desse projétil atingir uma pessoa. E também
existe a possibilidade desse ferimento ser letal. Imagino que um
policial civil não precisa ser um estatístico ou físico
para saber disso.
A possibilidade de
atingir uma pessoa inocente aumenta exponencialmente, quando esses
tiros são disparados em uma área de grande movimentação
de pessoas, como a Lapa numa noite de quinta-feira. Acho que qualquer
policial do Rio de Janeiro tem a obrigação de saber
disso.
Mas, mesmo sabendo de
tudo isso, os policiais resolveram gastar quase todo o pente de suas
pistolas, disparando cerca de dez tiros contra um alvo em movimento,
em meio a dezenas de transeuntes.
E atentemos para outro
fato. Os dez tiros não foram disparados para evitar um roubo.
O roubo já tinha sido interrompido. Os tiros foram para evitar
a fuga (leia-se “matar”) dos criminosos.
E ainda que o roubo
estivesse em andamento, não é nem um pouco razoável
disparar dez tiros para evitar um assalto. Evitar um crime que, ainda
que seja considerado violento (por envolver ameaça), é
essencialmente patrimonial com o disparo de tiros não é
razoável.
Colocar a vida de
pessoas em risco para evitar a subtração de bens
materiais não é razoável. Não é
razoável e não é inteligente.
Mas não só
isso. Disparar dez tiros para evitar um assalto ou evitar a fuga dos
assaltantes é algo criminoso. Colocar a vida de pessoas em
risco é mais criminoso do que assaltar essas pessoas.
É um crime mais
violento do que o roubo propriamente dito. E por que é
criminoso? Porque é violento e pode colocar a vida de pessoas
em risco. É criminoso porque pode tirar a vida de um jovem de
24 anos que tinha terminado de jantar e só queria dar um pulo
na calçada para fazer uma ligação.
E é assustador
que os autores desse disparo tenham sido policiais. Pessoas que
teoricamente conhecem os riscos de usar indiscriminadamente armas de
fogo no meio da rua.
Eu não acho
assustador apenas por causa disso. Os policiais não só
parecem desconhecer os riscos desse tipo de ação, como
acham razoável disparar tiros a esmo para evitar a fuga de um
criminoso. E eles só acham isso razoável porque a
sociedade também pensa assim.
A sociedade acha
razoável a ocorrência de “efeitos colaterais” na
luta “contra a violência”. A sociedade acha que é
normal “combater” a violência com violência. A
sociedade acha OK ter pessoas inocentes morrendo nas ruas pelas mãos
de agentes do Estado, porque esses agentes estão “lutando”
contra a violência.
A questão é
que Jonathan morreu. Jonathan não só morreu. Ele foi
assassinado.
O fato de Jonathan ter
sido morto “acidentalmente” por policiais que assumiram o risco
de disparar uma área cheia de gente não é menos
grave do que se ele tivesse sido morto por assaltantes.
Ao agir dessa forma, os
policiais não estão combatendo a violência. Eles
estão sendo um fator a mais para a violência. Eles estão
ajudando a aumentar os índices de criminalidade. Eles estão
contribuindo para o risco de morte no Rio de Janeiro. E o pior, eles
não estão colaborando em nada para evitar novos
assaltos.
Jonathan perdeu sua
vida. Os assaltantes fugiram. E os policiais continuarão
atirando nas ruas do Rio de Janeiro para “combater” a violência.
sexta-feira, 3 de abril de 2015
Menino de dez anos morre no Alemão: UPP se transforma em um espetáculo repulsivo que ninguém mais quer assistir
Meu dia hoje começou
de um modo repulsivo. Abri meu facebook e vi o vídeo de uma criança
de dez anos assassinada pelo Estado no Complexo do Alemão. O mal estar que eu senti é
indescritível. Não consegui sequer imaginar o que sentiram os pais
desse menino.
A criança foi morta
para que o governo mantenha sua chamada política de “pacificação”.
Uma política que já nasceu predestinada a dar errado. Uma política
que nasceu em 2008 propagandeando-se como a aposta numa polícia
comunitária, de proximidade, apesar de nunca ter conseguido ser mais
do que a versão tosca de uma ocupação territorial militar.
As Unidades de
Polícia Pacificadora (UPPs) tornaram-se uma marca publicitária de
altíssimo valor. Mas nunca foram mais do que isso. Renderam bons
frutos eleitorais para os políticos que se apropriaram dela, mas
nunca rendeu mais do que lapsos de esperança numa população que
acreditou em mais uma falsa promessa governamental.
A promessa de paz
nunca chegou a ser concretizada na maioria das favelas onde as UPPs
foram instaladas. A “pacificação” nunca passou de um teatro mal
encenado, protagonizado por canastrões de terno e coadjuvantes
vestidos de fardas azuis (e pretas; e até verde-oliva).
Um teatro reencenado
dezenas de vezes com histriônicas cenas da entrada de blindados e do
hasteamento da bandeira nacional nessas favelas. Uma superprodução
envolvendo centenas de milhares de figurantes que tiveram que ceder
suas ruas, casas e campos de futebol.
O problema é que
foi um teatro produzido com vistas a uma audiência moradora de
prédios (de médio e alto padrão) e de condomínios fechados. Mas
foi tão bem produzido, que chegou a enganar os figurantes (os
moradores das favelas) que chegaram a acreditar que aquilo tudo era
de verdade e não uma versão iraquiana do Projac.
Sem receber
previamente o roteiro e sem saber do funesto final que os aguardava
no final da peça teatral, os figurantes aplaudiram junto com a
plateia, deram entrevistas para a imprensa dizendo que seu futuro
melhoraria dali por diante, que a paz finalmente chegara a suas
comunidades e suas casas.
Mas foi aí que a
peça teatral começou a ficar estranha. Outros figurantes que tinham
sido eliminados do roteiro voltaram reivindicando seus direitos de
participar da encenação. E eles vieram armados de fuzis. E as balas
não eram de festim.
E os coadjuvantes de
farda tampouco usavam balas de festim. O roteiro começou a fugir do
controle de seus diretores. E os atores começaram a se enfrentar. O
sangue começou a jorrar de verdade.
No início, os
canastrões de terno disseram que tudo bem, isso fazia parte do
roteiro. Afinal, a peça era sobre uma redenção histórica. O
enredo envolvia a reconquista de territórios há décadas
controlados pelo mal. E logo tudo ficaria bem.
Mas não ficou. E a
peça se transformou num caos completo. Os diretores, atores
canastrões e coadjuvantes fardados não conseguiam mais seguir o
roteiro. E os figurantes começaram a ficar impacientes.
E, de repente, a
audiência começou a achar tudo muito sangrento. Aquele épico de
ação e redenção histórica havia se transformado em um daqueles
western violentos que todos se cansaram de ver. E a imprensa passou a
fazer críticas negativas sobre o enredo.
Então, os diretores
começaram a ficar desesperados. “Ou a pacificação dá certo. Ou
vamos todos para o buraco”. Disse um dos coadjuvantes.
Leitores do blog,
precisamos dizer para esse coadjuvante que nós já estamos no
buraco. Na verdade nunca saímos, não é mesmo Amarildo? Não é
mesmo Claudia? O senhor só está querendo salvar os diretores desse
desastre teatral.
Senhor fardado, essa
peça até chegou a criar um climax, nos seus dois primeiros anos.
Mas depois tornou-se chata. Violenta demais.
A audiência não
quer mais peças de teatro. A gente queria que nossa polícia fosse
usada para fazer alguma coisa de verdade. Esse bangue-bangue já saiu
muito caro para todos nós.
Vamos todos sair do
teatro. Esses canastrões não merecem nossa audiência.
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