domingo, 26 de abril de 2015

PM mata três e só apreende duas armas com os mortos: Um problema aritmético?

Policiais do Batalhão de São João de Meriti mataram hoje três homens que teriam tentado roubar motos de outros policiais, que estavam à paisana. Duas armas foram apreendidas com os mortos. Peraí, três mortos e duas armas? O que será que aconteceu?
a) Três bandidos revezavam duas armas para atirar nos policiais ("Peraí, fulano. Você já deu dois tiros. Deixa eu atirar também um pouquinho!")
b) Só devia ter dois bandidos atirando. Mas quem dá a mínima para o terceiro bandido que morreu desarmado?
c) A polícia matou os três independente de estarem sendo alvejados. Mataram simplesmente porque os bandidos cometeram um roubo (e cagaram para a constituição brasileira que proíbe a pena de morte).
d) Isso acontece todo dia, portanto ninguém questiona como aconteceu a ação policial e a Polícia Civil nunca investiga, a não ser que alguma imagem ou testemunha surja para desmentir a versão mentirosa da polícia.
Hoje tentei fazer a reportagem sobre o caso, mas as assessorias de imprensa da Polícia Militar e da Polícia Civil se recusaram a confirmar que apenas duas armas foram apreendidas (mesmo que toda a imprensa tenha noticiado que apenas duas armas foram apreendidas e atribuído a informação à própria PM).
Nem a PM nem a Civil me confirmaram a informação porque eu deixei claro que a história estava mal contada e que eu queria esclarecimentos. Queria saber em que situação os PMs mataram o terceiro suspeito (o desarmado) e se os policiais por acaso tinham sido presos em flagrante por homicídio ao registrarem o caso na Delegacia. Perguntei ainda se um IPM seria aberto. Nenhuma pergunta teve resposta.
Cada assessoria ou empurrava a responsabilidade para a outra, ou dizia que não conseguia reunir a informação para me passar.
A polícia continuará agindo assim, de forma irresponsável, e você continuará aplaudindo, até que um familiar seu seja a vítima da imperícia/brutalidade policial.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Menino de dez anos morre no Alemão: UPP se transforma em um espetáculo repulsivo que ninguém mais quer assistir

Meu dia hoje começou de um modo repulsivo. Abri meu facebook e vi o vídeo de uma criança de dez anos assassinada pelo Estado no Complexo do Alemão. O mal estar que eu senti é indescritível. Não consegui sequer imaginar o que sentiram os pais desse menino.

A criança foi morta para que o governo mantenha sua chamada política de “pacificação”. Uma política que já nasceu predestinada a dar errado. Uma política que nasceu em 2008 propagandeando-se como a aposta numa polícia comunitária, de proximidade, apesar de nunca ter conseguido ser mais do que a versão tosca de uma ocupação territorial militar.

As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) tornaram-se uma marca publicitária de altíssimo valor. Mas nunca foram mais do que isso. Renderam bons frutos eleitorais para os políticos que se apropriaram dela, mas nunca rendeu mais do que lapsos de esperança numa população que acreditou em mais uma falsa promessa governamental.

A promessa de paz nunca chegou a ser concretizada na maioria das favelas onde as UPPs foram instaladas. A “pacificação” nunca passou de um teatro mal encenado, protagonizado por canastrões de terno e coadjuvantes vestidos de fardas azuis (e pretas; e até verde-oliva).

Um teatro reencenado dezenas de vezes com histriônicas cenas da entrada de blindados e do hasteamento da bandeira nacional nessas favelas. Uma superprodução envolvendo centenas de milhares de figurantes que tiveram que ceder suas ruas, casas e campos de futebol.

O problema é que foi um teatro produzido com vistas a uma audiência moradora de prédios (de médio e alto padrão) e de condomínios fechados. Mas foi tão bem produzido, que chegou a enganar os figurantes (os moradores das favelas) que chegaram a acreditar que aquilo tudo era de verdade e não uma versão iraquiana do Projac.

Sem receber previamente o roteiro e sem saber do funesto final que os aguardava no final da peça teatral, os figurantes aplaudiram junto com a plateia, deram entrevistas para a imprensa dizendo que seu futuro melhoraria dali por diante, que a paz finalmente chegara a suas comunidades e suas casas.

Mas foi aí que a peça teatral começou a ficar estranha. Outros figurantes que tinham sido eliminados do roteiro voltaram reivindicando seus direitos de participar da encenação. E eles vieram armados de fuzis. E as balas não eram de festim.

E os coadjuvantes de farda tampouco usavam balas de festim. O roteiro começou a fugir do controle de seus diretores. E os atores começaram a se enfrentar. O sangue começou a jorrar de verdade.

No início, os canastrões de terno disseram que tudo bem, isso fazia parte do roteiro. Afinal, a peça era sobre uma redenção histórica. O enredo envolvia a reconquista de territórios há décadas controlados pelo mal. E logo tudo ficaria bem.

Mas não ficou. E a peça se transformou num caos completo. Os diretores, atores canastrões e coadjuvantes fardados não conseguiam mais seguir o roteiro. E os figurantes começaram a ficar impacientes.

E, de repente, a audiência começou a achar tudo muito sangrento. Aquele épico de ação e redenção histórica havia se transformado em um daqueles western violentos que todos se cansaram de ver. E a imprensa passou a fazer críticas negativas sobre o enredo.

Então, os diretores começaram a ficar desesperados. “Ou a pacificação dá certo. Ou vamos todos para o buraco”. Disse um dos coadjuvantes.

Leitores do blog, precisamos dizer para esse coadjuvante que nós já estamos no buraco. Na verdade nunca saímos, não é mesmo Amarildo? Não é mesmo Claudia? O senhor só está querendo salvar os diretores desse desastre teatral.

Senhor fardado, essa peça até chegou a criar um climax, nos seus dois primeiros anos. Mas depois tornou-se chata. Violenta demais.

A audiência não quer mais peças de teatro. A gente queria que nossa polícia fosse usada para fazer alguma coisa de verdade. Esse bangue-bangue já saiu muito caro para todos nós.


Vamos todos sair do teatro. Esses canastrões não merecem nossa audiência.  

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Violência nas manifestações: A cumplicidade de um secretário de Segurança "horrorizado" com as palavras de seu subordinado

Hoje nosso secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, se disse "horrorizado" com as declarações do ex-comandante do Batalhão de Choque, coronel Fábio, no whatsapp. Para quem não leu a reportagem da Veja, em um grupo de mensagens para oficiais da PM, o coronel escreveu atrocidades como a defesa do uso de fuzil 7.62 contra manifestantes e a comemoração de um tiro de bala de borracha nas costas de um protestante a cerca de 30 metros de distância.

O curioso dessa história é que as atrocidades cometidas pela PM durante as manifestações foram amplamente divulgadas pela imprensa ao longo de todo 2013 e 2014. Eram casos de agressões de manifestantes, uso indiscriminado de armas não letais, prisões ilegais, cerceamento do trabalho da imprensa, impedimento ilegal da circulação de pessoas etc etc. Um policial chegou ao ponto de chutar o rosto de um jornalista estrangeiro, que já estava no chão, machucado.

Mas nada disso pareceu deixar "horrorizado" o secretário de segurança, o superior hierárquico de todos os policiais militares do Rio de Janeiro.

O caro secretário Beltrame só ficou ultrajado quando ele viu um oficial defendendo as atrocidades em mensagens privadas do whatsapp.

Apenas uma pergunta, Beltrame. Em nenhum momento, o senhor se questionou por que a polícia atuou de forma violenta, absurda, animalesca, ineficaz e ilegal durante as manifestações populares de 2013 e 2014?

Se o senhor (que aliás, como comandante das polícias é corresponsável por todos os desvios da tropas) tivesse buscado saber por que a polícia estava espancando cidadãos e jornalistas durante os protestos, teria sabido desde o primeiro dia que o comando do Batalhão de Choque estava incentivando seus homens a agir como animais.

Sim, Beltrame. Eu fiquei horrorizado desde a primeira vez em que estive em uma manifestação e vi, com meus próprios olhos, o que aqueles representantes do Estado estavam fazendo com os cidadãos que deveriam proteger.

Fiquei horrorizado com o que soldados, cabos, sargentos, oficiais e comandantes estavam fazendo nas ruas. E fiquei horrorizado com os chefes das polícias, com o senhor, secretário Beltrame, e com o governador do estado por fecharem seus olhos para as barbaridades cometidas por seus subordinados.

O senhor, secretário, é tão responsável pelo braço quebrado, pelo olho inchado e pelo hematoma de cada cidadão que sofreu com os abusos quanto esses militares descontrolados.

O senhor, Beltrame, é responsável por cada sequestro (sim, SEQUESTRO, porque muitos cidadãos não eram presos, mas arrastados pelos policiais sem terem cometido qualquer crime) cometido por policiais nessas manifestações.

É lamentável ver como o senhor, uma autoridade de altíssimo prestígio junto à população, tente se isentar de suas responsabilidades. Mas o mais lamentável é saber que essa é apenas a ponta do iceberg de um sistema policial que ainda acha que está acima da lei e que ainda age como a Santa Inquisição na Idade Média, o capitão do mato do Brasil colônia, a guarda do rei ou o agente da ditadura.

Um sistema policial que não evoluiu com a sociedade.

Policiais não acham que estão acima da lei apenas nas manifestações. Eles acham que estão acima da lei quando achacam cidadãos, quando atiram a esmo nas ruas da cidade, quando, com sua arma, ameaçam outros cidadãos e até agentes do Estado.

E a polícia continua se pensando acima da lei, porque seus superiores nada fazem para colocar ordem na casa. Superiores como o senhor, secretário Beltrame, ou o governador do Estado.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Tiros pela cidade: como o disparo de armas de fogo nas ruas se tornou banal na nossa sociedade?

Estava em casa hoje. Eu na cozinha, meu filho na sala, quando escuto tiros na rua. Corro desesperado para saber se está tudo bem com meu filho. Tudo bem, parece que a barbárie lá de fora não atingiu minha casa. Era por volta das 16h.

Na tensão, não consigo contar o número de tiros. Não sei se foram três, quatro ou cinco. Escuto um homem gritando lá fora. “Calma, calma. Sou policial. Estou fazendo segurança aqui da van e o vagabundo queria me roubar!”

Pela varanda vejo a tal van branca saindo da rua. Tento ver a placa mas não consigo. A van sai de marcha ré e segue pela rua. Ligo para minha esposa, que estava na rua, para saber onde ela está. Ela diz que acabou de entrar na garagem.

“Meu Deus!”, penso. “Ela acabou de passar pela linha de tiro. Não sei se pouquíssimos minutos antes ou pouquíssimos minutos depois”. A entrada da minha garagem fica bem na linha de tiro entre o suposto “policial” e o suposto “vagabundo” contra o qual ele atirou. Poucos segundos garantiram que minha esposa chegasse ilesa em casa.

Ela não viu, nem ouviu os tiros. Possivelmente, ela chegou poucos minutos (ou segundos) depois do tiroteio. Minha esposa chega bem em casa, pela graça de Deus.

Desço e converso com as pessoas que viram tudo. O homem sacou uma pistola e atirou no suposto ladrão. Depois, ele e as pessoas que estavam com ele, recolheram as cápsulas deflagradas do chão e taparam a placa do veículo com um adesivo, antes de saírem do local do crime.

Pouco depois fico sabendo que o tal bandido foi atingido e está caído na frente de uma escola, que fica um pouco mais acima, na mesma rua. Pedestres chamam os bombeiros e eu ligo para a polícia. Passa-se meia hora e ninguém chega.

Saio pelas ruas do bairro e procuro uma patrulha. É nessas horas que você percebe como é difícil achar um policial militar, quando se precisa deles. Acho um carro parado há cinco quarteirões e os comunico sobre a ocorrência.

Volto ao local onde a vítima está caída. Os bombeiros e a polícia já estão lá, cerca de 50 minutos depois do tiroteio. O rapaz ferido já havia sido recolhido à ambulância. Ouço algumas pessoas comentando que os bombeiros não precisavam tê-lo socorrido e podiam tê-lo deixado sangrando no chão.

Vou até a janela da patrulha e digo aos policiais que meu prédio tem câmeras que podem ter capturado a ocorrência. Também relato o que ouvi do atirador. (que ele era policial e estava fazendo segurança da van). Os PMs parecem pouco interessados no que eu tenho a dizer. Um deles diz apenas: “Quer saber? Acho que ele [o cara que atirou] não está errado, não. O outro [que foi baleado] disse que só estava pedindo dinheiro. Se ele tivesse só pedindo dinheiro, o cara não teria dado cinco tiros nele”.

Eu respondo: “A questão não é essa. O cara [que levou o tiro] está errado de tentar roubar [se é que ele estava mesmo]. Mas o outro está mais errado ainda de dar cinco tiros numa rua dessas. Tem uma creche e uma escola aqui nessa rua [o tiro foi dado na direção dessas duas unidades escolares]. Podia ter atingido uma criança. Por pouco minha esposa não foi atingida”.

O outro diz: “Tá tudo muito banalizado!”.

Eu respondo: “Independente dele ser policial ou não [e se ele for policial está duplamente errado, em dar tiro a esmo e em fazer segurança ilegalmente]. Ele não tem que sair atirando no meio da rua”.

O primeiro policial faz uma cara de bunda, como se não estivesse com paciência para nada.

Digo apenas: “Faz o seguinte. Quando vocês forem registrar o caso na delegacia, digam apenas que meu prédio tem câmeras que podem ter registrado a ação. Estamos a disposição para ceder as imagens, se for preciso”.

O policial (da cara de bunda) diz: “Olha, isso não vai dar em nada, não. Mas me diz teu nome e teu telefone”.

Digo meu número e me despeço dos policiais.

Volto para casa desiludido. Houve uma tentativa de homicídio (ninguém reage a um assalto em que o bandido não está armado com cinco tiros), o risco de incolumidade física de pessoas inocentes (e crianças), o uso indevido de arma de fogo e a destruição da cena do crime. Tudo isso possivelmente envolvendo um agente da lei. E os PMs estava tratando como se fosse uma ocorrência de reclamação por excesso de barulho ou briga de vizinhos.

Mas também entendi o desinteresse dos policiais. Todos os dias, centenas de tiros são disparados na cidade do Rio de Janeiro. Grande parte deles pela própria polícia (de serviço ou de folga). Não dá para ficar investigando cada vez que alguém aperta uma gatilho numa rua da cidade. Mesmo que esse tiro atinja alguém.

Ao mesmo tempo, pelo meu ponto de vista, é justamente porque ninguém investiga os disparos de armas de fogo no Rio de Janeiro (e no Brasil) que essa atitude tornou-se tão banal. É muito fácil puxar meu revólver ou pistola da cintura e brincar de bangue-bangue nas ruas.

Não é possível dizer em que momento ficamos tão bestializados a ponto de aceitar essa situação de caos social como um fato corriqueiro em nossas vidas. Em que momento das nossas vidas aceitamos que um policial diga “bem feito para esse vagabundo. Se ele tentou roubar alguém. Mereceu levar cinco tiros”.

Não vou entrar no mérito de que há um limite para a legítima defesa e que no Brasil não existe pena de morte. E ainda que existisse (como nos EUA ou no Irã), o réu teria que passar por um julgamento para ser condenado.

Só pergunto: e as crianças nas ruas? E nossas esposas, pais, irmãos, filhos, sobrinhos que nada tem a ver com o “vagabundo” que teve o azar de assaltar outro “vagabundo” mais poderoso que ele?

Será uma simples fatalidade se nossos entes queridos forem atingidos por uma bala perdida? Terá sido o acaso, como uma amêndoa que desaba sobre o capô de nossos carros, um cocô de pombo que cai nas nossas cabeças ou um banho de água suja num ponto de ônibus num dia de chuva?

É normal termos que nos preocupar com alguém, que, a qualquer momento, pode decidir se defender de um assalto e dar uma saraivada de tiros na rua, acabando com nossas vidas?

No Rio de Janeiro, centenas de pessoas morrem anualmente vítimas de balas perdidas. Outras milhares (algo em torno de 5 a 6 mil) são deliberadamente assassinadas, porque algumas pessoas se arrogam do direito de ter mais direito do que as outras e extinguir vidas.

E tudo isso ocorre perante uma polícia impassível. Assoberbada por crimes que ela mesmo alimenta com sua inépcia (preventiva, repressiva e investigativa). Algo em torno de apenas 5% a 20% dos casos de letalidade violenta são esclarecidos pelas polícias do Brasil.

Arrisco-me a dizer que de 60% a 70% desses casos sequer são investigados. São registros de ocorrência que nem saem das gavetas da “investigação preliminar” (nome pomposo para a seção da polícia que digita sua ocorrência e pede para você assinar seu testemunho) da Polícia Civil.

Se formos considerar também os casos de balas perdidas e de tentativas de homicídio, o número de investigações é ainda menor.

Nos casos de auto de resistência, quando a polícia assassina alguém em suposta legítima defesa, o índice de investigação é mais pífio ainda.

Os milhares de tiros que são disparados nas cidades mas que, por puro acaso, não atingem ninguém, então, sequer merecem uma “investigação preliminar”.

Como acabar com isso? Autoridades policiais, por favor, comecem a se incomodar com tiros que são dados a esmo na cidade. Em um primeiro momento, vocês terão um trabalho infinito de levar esses casos adiante. Parecerá impossível e será mesmo impossível.

Mas só se incomodando com essa situação, vocês vão conseguir reduzir as mortes por balas perdidas, as tentativas de homicídio e os homicídios no país. E, dentro de cinco a dez anos, vocês terão menos trabalho a fazer, porque haverá menos crimes a solucionar. E quanto menos crime para solucionar, mas fácil será solucionar os crimes esporádicos que ocorrerem.

Aos policiais que saem dando tiro pelas ruas, peço que parem de fazer isso. Pode parecer óbvio, mas quanto menos vocês fizerem isso, menos trabalho vocês vão ter, menos gente vai ficar ferida e menos gente vai morrer. Seus filhos e netos poderão andar mais tranquilos pelas ruas, tendo que se preocupar apenas com amêndoas, cocôs de pombo e banhos de lama, sem o risco de uma bala perdida achar algum órgão vital seu e encerrar suas vidas.

Ps.: Aposto que jamais serei procurado pela Polícia Civil para solicitar as imagens da câmera do meu edifício.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Mitos e verdades sobre as UPPs

Fiquei um bom tempo fora aqui do blog e isso pode ser explicado por dois motivos:

1) Minha vida pessoal passou a tomar uma boa parte do tempo disponível que eu tinha anteriormente.
2) Uma das principais funções assumidas por esse blog (desconstruir a imagem cor-de-rosa semeada pela imprensa carioca sobre as Unidades de Polícia Pacificadora), começou a se tornar desnecessária, na medida em que casos de violência e mazelas começaram a pipocar nas UPPs e a imprensa começou a se questionar sobre a real eficácia do modelo até então considerado irretocável e sagrado (principalmente a partir de 2012).

Mas (infelizmente ou não) minha atividade profissional me colocou de volta no caminho das UPPs nas últimas semanas. Devido aos ataques sofridos pelas Unidades de Polícia Pacificadora, acabei sendo levado a cobrir esse tema e voltei a me envolver com essa questão.

E, quando você imerge em um tema da forma como aconteceu comigo nos últimos dias, você é levado a refletir sobre ele.

Diante de todas as informações que obtive ao longo desses seis anos de existência da UPP e dos fatos que constatei nos últimos dias, resolvi escrever um guia com mitos e verdades sobre essa “política”.

Então vamos lá:
1) As UPPs não acabam com o tráfico, mas acabam com o poder paralelo de quadrilhas armadas nas comunidades.

Mito. Há inúmeras ocorrências de tiroteios entre policiais e criminosos (e de assassinatos a mando do tráfico) noticiadas pela imprensa desde 2009 em comunidades ditas pacificadas, que mostram que não é só o tráfico que continua nessas comunidades. As mesmas quadrilhas que controlavam a venda de drogas nas comunidades antes das UPPs continuam comandando o negócio. É seguro dizer que em quase 100% (se não em 100%), o negócio é guardado por homens armados. Em algumas favelas, as armas são os mesmos fuzis que o governo fluminense prometeu extirpar das favelas. Nas comunidades maiores, a hierarquia do tráfico continua a mesma que era antes da pacificação, como é o caso dos Complexos do Alemão/Penha e da Rocinha: a liderança da facção continua controlando os negócios ilícitos e conta com um testa-de-ferro dentro da favela (“dono” ou “frente” do morro). Em geral, as vendas da cocaína e da maconha são responsabilidade de gerentes diferentes (“gerente do preto” e “gerente do branco”), que controlam os “vapores” (vendedores da droga). E as grandes favelas são até subdivididas em gerências regionais. Há uma divisão armada, composta pelos soldados, que, em geral, são comandados por um gerente operacional. Há também os armeiros (responsáveis pela negociação e manutenção das armas) e os contatos com atacadistas exteriores (que abastecem a favela com a droga). Com o poder da arma, a ditadura do medo continua semeada em muitas dessas comunidades.

2) Nas comunidades com UPPs não há mais ostentação de armas.

Meio verdade, meio mito. É claro que não se vê mais homens armados na entrada das favelas, nas ruas principais ou nas lajes das casas. Mas, se as bocas-de-fumo continuam sendo guardadas por fuzis, a arma continua sendo ostentada na favela, sim. Fuzil não é uma arma que você consiga guardar na sua cintura ou no seu bolso. Ainda que o fuzil seja ostentado apenas em vielas, ou no momento do ataque a policiais, há sim ostentação.

3) Nas comunidades com UPPs acabaram os tiroteios.

Mito. Apesar de pouquíssimas comunidades não terem registrado mais tiroteios (Santa Marta, por exemplo), há ainda tiroteios na maioria das favelas “pacificadas”. Mas para responder a essa pergunta, é preciso entender quais são os provocadores de tiroteios nas favelas. E, basicamente, só há duas razões para os tiros: disputa pelo controle dos pontos de venda de drogas (que pode durar apenas um dia ou pode se arrastar por meses ou anos) ou ação policial. Eu me arrisco a dizer, sem medo de errar, que a grande maioria dos tiroteios é provocada pela própria polícia nas dezenas de ações injustificadas e despropositadas que acontecem toda semana em várias favelas do estado. Uma vez que a polícia está lá dentro, a necessidade de trocar tiros para entrar na favela se acaba. No entanto, perseguições policiais, ataques de criminosos e encontros “casuais” entre policiais e bandidos na comunidade resultam em tiroteio. O outro motivo para tiroteios, que é a disputa pelo controle dos pontos de venda, também reduz sua probabilidade de acontecer, já que a própria polícia acaba “propositadamente ou não” fazendo um cinturão de segurança nas bocas-de-fumo. No entanto, mesmo assim há casos de confrontos entre quadrilhas rivais. No Babilônia/Chapéu Mangueira, há pouco tempo, teve uma tentativa de invasão. Na Rocinha, a quadrilha da parte alta brigou com a quadrilha da parte baixa e houve mortes relacionadas a esse conflito.

4) O tráfico de drogas nas favelas com UPPs ocorre em uma escala muito menor do que antes da ocupação policial.

Mito. Durante as investigações da infame Operação Paz Armada (a mesma que resultou na tortura e morte de Amarildo de Souza), em 2013, a Delegacia de Polícia da Gávea (15a DP) revelou que o tráfico de drogas na Rocinha, mesmo um ano depois da instalação da UPP na comunidade, continuava movimentando cerca de R$ 6 milhões por mês (isso dá R$ 72 milhões por ano... Peraí, deixa eu escrever de novo SETENTE E DOIS MILHÕES DE REAIS... SE-TEN-TA E DO-IS MI-LHÕ-ES). Bem, acho que a UPP não afetou tanto o lucro do tráfico na Rocinha, cuja economia continua movimentando montantes semelhantes ao período pré-ocupação.

5) Os traficantes não ficam em locais fixos das comunidades, mas se movimentam com “pequenas” quantidades de droga para evitar a apreensão policial.

Meia verdade. A própria Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) já reconheceu que existem pontos que são controlados pelos criminosos, como a Quinta Estação (no Pavão-Pavãozinho), e Chuveirinho e Inferno Verde (no Complexo do Alemão)

6) A resposta padrão das autoridades fluminenses para explicar os problemas que acontecem nas comunidades que supostamente estariam pacificadas é: “Não conseguiremos consertar 40 anos de descaso e violência nas comunidades fluminenses de uma hora para outra. Serão necessários mais... (aí a resposta varia) 10 anos, 20 anos, 30 anos para que as UPPs consigam reverter esse quadro”. É verdade ou mito?

Bem. Isso é, em parte, verdade. Vamos aos fatos. O problema da violência epidêmica nas comunidades, na verdade, não tem 40 anos. Apesar do tráfico de drogas ter crescido nas décadas de 60 e 70 no Rio de Janeiro, as facções criminosas só começaram a se armar e disputar controle territorial em meados da década de 80. Bem então, não são exatamente 40 anos (ou um século como o coordenador das UPPs, Frederico Caldas, chegou a dizer), são cerca de 30 anos. E, desses 30 anos, o governo atual, que assumiu em 1o de janeiro de 2007, responde por sete anos, ou seja, 23% do período em que há controle armado territorial nas favelas fluminenses. E as UPPs existem há seis anos, ou seja, representando 20% desse período de 30 anos. Então, reconheçamos que um governo que está há sete anos e dois meses no poder, já deveria ter conseguido resolver boa parte do problema, criado nos 23 anos anteriores. Estou certo ou estou sendo muito exagerado? O governo, ao usar essa desculpa, está sendo, no mínimo, malandro, uma vez que está jogando a suposta solução para um horizonte politicamente distante (10, 20, 30 anos no futuro). Nesse período, governos opositores assumirão e será muito fácil jogar a responsabilidade de um fracasso nas mãos deles.

7) Mas você não acha que 3 ou 4 anos são pouco tempo para reverter o problema com as UPPs?

Sinceramente, sim. Mas eu sempre disse que não dá para acreditar em soluções mágicas (i.e. UPPs). Poderíamos ter conseguido resultados muito melhores do que as pífias conquistas que obtivemos nesse período, se tivéssemos investido em outras políticas de segurança, em vez de voltarmos 95% das baterias e recursos para uma política baseada na ocupação territorial militar. Uma vez que acreditamos que encher a favela de policiais resolveria nossos problemas da noite para o dia, passamos a acreditar que a violência não era mais um calcanhar-de-aquiles e a não exigir que o cerne do problema da segurança pública fosse resolvido.

8) O governador Sérgio Cabral e o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, dizem que ninguém é ingênuo de acreditar que as UPPs resolveriam os tais “40 anos de abandono”.

Bem, então eles eram ingênuos (ou tratavam o povo como burro) ao anunciar, em cada nova inauguração de UPP, que o Estado estava “retomando o território”, “acabando com o poder paralelo”, “livrando as pessoas do tráfico” etc etc... Vejamos algumas afirmações de Cabral no passado:
“As reconquistas dos territórios tanto da Vila Cruzeiro quanto do Alemão já foram efetivadas” (Cabral falando sobre a ocupação do Complexo do Alemão, G1, 29 de novembro de 2010)
“Agradeço imensamente o apoio que eu tive da população do Rio durante toda a campanha e quero reforçar que minha prioridade continuará sendo segurança pública. Vou repetir que até 2014 o Rio não terá mais comunidade dominada pelo poder paralelo do tráfico” (Cabral ao comentar a vitória nas eleições de 2010, O Globo, 3 de outubro de 2010)
“Todas as comunidades onde houver o poder paralelo serão completamente retomadas pelo poder público porque é isso que população quer” (Cabral ao comentar vitória nas eleições de 2010, Portal IG, 3 de outubro de 2010)
"Eu não estava feliz porque não tinha paz. Agora, estamos resgatando a paz." (Cabral sobre a ocupação da Rocinha, Portal Terra, 13 de novembro de 2011)

Bom, mas nada melhor do que esse vídeo, da campanha de 2010, para confrontar a posição pseudo-realística de hoje do governador, com a utopia que ele vendeu aos cidadãos fluminenses:

Aos 3 minutos e 55 segundos do vídeo, Cabral solta a pérola: “Vamos terminar o segundo mandato, se eu for reeleito, sem nenhuma comunidade com poder paralelo no Rio de Janeiro. Isso é um compromisso meu, com meus filhos, com minha família, com os moradores desse estado, comigo mesmo, com Deus”

E aos 5 minutos e 42 segundos, Cabral resume seu medíocre plano para a segurança pública: “A gente tem metas... E as UPPs... As UPPs pacificam comunidades, pacificam regiões”.

Bem, pessoal, pensem por si mesmos. Cabral se comprometeu com seus filhos, com a família e até com Deus, que não haveria nenhuma comunidade com “poder paralelo” até este ano. Mas agora que “deu ruim” (para usar a gíria popular), Cabral disse que ninguém era ingênuo de achar que a UPP ia acabar com a violência nas comunidades.

Eu, graças a Deus, nunca fui ingênuo, mas não posso dizer o mesmo do governo, da imprensa e da esmagadoria maioria da sociedade.
Eu sou contra as UPPs? Não.
Acho que a UPP melhorou alguma coisa? Muito pouco, prova disso é que os índices de homicídio no estado cresceram 17% em 2013 (na comparação com 2012) e voltaram aos patamares de 2010 (4.700 assassinatos por ano). Em janeiro de 2014, já houve 18% mais homicídios do que em janeiro do ano passado.
Eu preferiria que não existissem as UPPs? Na verdade, eu gostaria que existisse uma política que desse resultados melhores e mais consistentes do que as UPPs.


A continuar...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Morte violenta de jovens provoca perda de mais de dois anos na expectativa de vida em alguns estados

A morte violenta de milhares de jovens a cada ano no país provoca redução da expectativa de vida em todos os estados, revela estudo divulgado hoje (12) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Em alguns estados, como Alagoas e Espírito Santo, a expectativa de vida dos homens diminui mais de dois anos por causa de homicídios, acidentes e suicídios de pessoas entre 15 e 29 anos.

De acordo com o Ipea, os homens de Alagoas têm perda de 2,62 anos em sua expectativa de vida e os do Espírito Santo, de 2,14 anos. Outros nove estados têm redução de mais de 1,5 ano na esperança de vida por causa da violência na juventude: Bahia (1,81 ano), Amapá (1,74), Pará (1,73), Paraíba (1,69), Paraná (1,68), Pernambuco (1,66), Ceará (1,6), Goiás (1,53) e Mato Grosso (1,51).

Apenas três estados têm perda estimada menor do que um ano: São Paulo (0,78), Acre (0,95) e Santa Catarina (0,98). Os homens do Rio de Janeiro têm perda é de 1,32 ano e o Distrito Federal, de 1,42. O estudo do Ipea também tenta contabilizar, por meio de um modelo econômico complexo, o “valor da vida”.

Conforme o cálculo do Ipea, as mortes violentas de jovens no país causam perda de bem-estar social equivalente a R$ 79 bilhões por ano. O custo equivale a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), que é a soma de todos os bens e serviços produzidos no país.

Segundo o pesquisador do Ipea Daniel Cerqueira, o impacto é diferente em cada estado. Nos estados mais violentos, como Alagoas, o custo das mortes violentas, de R$ 1,7 bilhão, chega a representar 6% do PIB. Em São Paulo, estado que registra a menor taxa de mortes violentas de jovens, o custo, de R$ 14,9 bilhões, representa 1% do PIB.

“A taxa de mortalidade é um custo de bem-estar social. É um custo em termos de dor, sofrimento, perda de produtividade, e representa um grande custo econômico. Só para ter uma dimensão do que representam R$ 79 bilhões, isso é mais do que o orçamento das secretarias de Segurança e de Justiça [ou Administração Penitenciária] de todos os estados”, disse Cerqueira.

Depois de três anos em alta, homicídios no Brasil tiveram queda de 0,12% em 2011

O número de homicídios no Brasil teve uma pequena queda de 0,12% em 2011, depois de crescer por três anos consecutivos. Segundo dados levantados pela Agência Brasil no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, foram registrados 52.198 assassinatos no país em 2011, 62 casos a menos do que no ano anterior.

Apesar da queda, 2011 manteve-se acima do patamar de violência de 2009, quando ocorreram 51.434 homicídios, e registrou o segundo maior número de assassinatos desde o início da série histórica disponível para consulta do Ministério da Saúde.
De acordo com dados, é possível observar que os homicídios seguem uma tendência de alta entre 1993 e 2003, quando atingiu 51 mil casos. Em 2004 e 2005, houve quedas. Os números voltaram a subir em 2006 e caíram em 2007. A partir de 2008, os assassinatos aumentaram, atingindo níveis recordes em 2009 (51.434) e 2010 (52.260).

Onze das 27 unidades da Federação tiveram redução dos homicídios. As maiores quedas foram observadas em três estados da Região Norte do país: Roraima (-22,8%), Amapá (-19,4%) e Rondônia (-17,8%).

Todos os estados do Sul do país tiveram queda. No Norte, além dos três estados em destaque pela redução mais expressiva dos homicídios, o Pará também teve queda. Na Região Sudeste, caíram os homicídios em São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo. No Nordeste, houve redução apenas na Bahia. Nenhuma das quatro unidades do Centro-Oeste conseguiu reduzir seus homicídios em 2011.

Os assassinatos cometidos com armas de fogo no país também caíram pouco entre 2010 e 2011. Foram registradas 36.737 mortes em 2011, 55 a menos do que no ano anterior.

Em sete anos, homicídios na Região Nordeste aumentaram quase 70%

Dados estatísticos do Ministério da Saúde mostram que, em sete anos, o número de assassinatos na Região Nordeste aumentou 68%. Se em 2004 a região teve 11.546 homicídios, em 2011, após sete anos de aumento contínuo da violência, esse número passou para 19.405. O crescimento do indicador entre 2010 e 2011 foi 2,8%.

Os números levantados pela Agência Brasil no Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde mostram ainda que, em 2011, oito dos nove estados da região tiveram aumento no número de homicídios, enquanto o total no país caiu, ainda que somente em 0,12%. Apenas a Bahia fugiu à tendência regional, apresentando queda de 5,4%.

Com 1.042 homicídios, o Rio Grande do Norte foi o estado brasileiro onde a violência mais se acentuou entre 2010 e 2011, com um aumento de 27,9% nos casos de assassinato. Ali, como na Região Nordeste, os registros de morte violenta por agressão vêm crescendo nessa unidade há sete anos.
Entre 2004 e 2011, os assassinatos no Rio Grande do Norte triplicaram. Em 2011, pela primeira vez, a região ultrapassou a marca de mil homicídios.

A Paraíba aparece em segundo lugar com crescimento de 11,1% no número de homicídios, seguida por Alagoas (8,7%), Ceará (7,2%), Sergipe (7,1%), Maranhão (5,4%) e Piauí (5,4%). Segundo o coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Ignacio Cano, não existe nenhuma resposta conclusiva sobre o aumento dos homicídios no Nordeste.

“Essa foi a área do país onde os programas contra a pobreza tiveram mais impacto. Entretanto, os índices estão aumentando. Existe uma interpretação de que esse crescimento da riqueza está gerando fluxos populacionais, está gerando o crescimento de algumas cidades. E esses crescimentos de atividades econômicas estão acompanhados de fluxos de criminalidade”, disse Cano.

A outra região brasileira que teve crescimento da violência em 2011 foi a Centro-Oeste, com alta de 10,5%. As demais regiões brasileiras tiveram queda nos homicídios: Norte (-6,3%), Sul (-4,6%) e Sudeste (-2,3%).

As quatro unidades do Centro-Oeste tiveram aumento dos assassinatos entre 2010 e 2011, com destaque para Goiás (16,8%) e Distrito Federal (10,8%). Mais quatro estados tiveram aumento no número de homicídios: Amazonas (19,8%), Minas Gerais (16,8%), Tocantins (14,1%) e Acre (1,8%).